Ai de mim se eu não evangelizar! (1Cor 9,16)
Fonte: SCHEID, Dom Eusébio Oscar. Oração do Evangelizador nos dias de Hoje. Arcebispo/RJ. 25 set. 2002. Jornal O Testemunho de fé, nº 242, out. 2002.
“Ai de mim se eu não evangelizar!”
Assim, avanço, como um evangelizador, pelo tecido de nossa origem carregado de tumultos, êxtases paradisíacos e os desafios humanos que surgem desde o alvorecer, incluindo a decadência, a desonestidade, o engano, a vaidade, o consumismo, a aspiração de igualar-se a Deus, o assassinato entre irmãos e a subsequente devastação parcial da humanidade.
Busco imergir, Senhor, na essência da história, pois Tu és seu regente. Não devo temer as sombras que essa narrativa projeta, como a escravidão, os conflitos, as discórdias... Tua palavra sagrada também ilumina as esperanças do presente e do futuro que se desenham contra o pano de fundo da história.
Observo os heróis que entregaram suas vidas pela fé em Tua palavra, aqueles que não renunciaram aos Teus mandamentos, mas permaneceram leais, abrindo novos horizontes para a juventude, horizontes repletos de sonhos, às vezes incertos e cheios de aventura. A verdade que revelas, Senhor, entendo bem, se incorpora na história e se torna parte dela.
Tua palavra sagrada, iluminada e clara, nos ajuda a compreender a história em seus mais intrincados desvios. Devo encontrar, nesta jornada e na busca pelas diversas culturas dos povos, desde os mais ancestrais e talvez primitivos, os indícios da verdade, o Evangelho oculto no coração dos rituais iniciais da religião, onde também brilha o esplendor da verdade.
Ao revisitar a história do Evangelho, não consigo ficar em silêncio diante daqueles que criticam os missionários do passado por terem sido colonizadores, opressores ou algo pior. Muitos mártires se apresentam a mim, incontáveis confessores, heróis de todas as eras! Por meio deles, a fé floresce em cada canto deste mundo. Como evangelizador contemporâneo, devo também encarar os desafios dos novos métodos, da era digital, de todas as formas de mídia. Sem isso, falho em ser um mensageiro moderno.
Preciso enfrentar os novos fóruns de debate, de diálogo, os desafios intelectuais, os espaços onde ideias divergentes se encontram e colidem. Não devo temer, Senhor, proclamar o cerne da Tua revelação, o mistério da Cruz, a Tua redenção. O sangue misterioso de Tua morte, que parece manchar as páginas do Novo Testamento... É necessário falar com um fervor renovado, com uma paixão ardente, com a convicção de quem crê, espera e confia no que anuncia. Preciso buscar novas abordagens, talvez até agora desconhecidas, para transmitir essa paixão de maneira nova e convincente. O desafio da linguagem persiste, adaptar-se a todos os contextos e falar a todos os povos, a cada tipo de pessoa. Assim, a linguagem deve ser quase universal.
Porém, gostaria de refletir um pouco sobre o conteúdo da evangelização de hoje. Sinto a urgência de falar em defesa das crianças, nascidas e não nascidas, vulneráveis, maltratadas, aquelas crianças que Jesus tanto amou e valorizou. Não posso ignorar a juventude, muitas vezes desorientada, liderada por figuras sem escrúpulos, por caminhos de ideologias precipitadas e audaciosas, mas incapazes de oferecer uma direção segura, um caminho para a felicidade e realização humana e cristã.
Não posso deixar de mencionar a "opção preferencial pelos pobres": isso não deve ser apenas um slogan, mas um compromisso de vida. Pobres trabalhadores! Quanto tempo esperam por reformas que nunca se concretizam, enquanto o suor de seu esforço escorre sem sequer umedecer o salário insuficiente para sustentar a família. É imperativo anunciar o Evangelho, em sua totalidade, às famílias em crise e às que não estão, às famílias despedaçadas por desuniões e traições.
Como omitir a política, sem me envolver na partidária, mas destacando a arte do bem comum que emerge do Evangelho e dos escritos apostólicos, já que "toda autoridade provém de Deus"? Não devo temer anunciar a verdade completa do Evangelho, a coragem de afirmar que "somos todos irmãos", mesmo que políticas nos separem, mesmo que raças e culturas nos mantenham a uma certa distância.
Senhor Jesus, como evangelizador dos tempos atuais, procuro Tua maneira, eterna e sempre atual, de evangelizar: com honestidade, justiça, paz e segurança. É necessário revelar Teu rosto através da imagem que transmito aos ouvintes. Que de meus lábios de evangelizador flua também, como dos Teus, divinos e humanos, a água límpida da verdade, a fonte que jorra para a vida eterna.
Concede-me, Senhor, o zelo de Paulo, a bravura de Pedro, a simplicidade de João e o fervor apostólico de todos os outros que foram pioneiros e mártires nas fases iniciais e posteriores de nossa história. Dá-me a audácia de evangelizar hoje e sempre. Isso será um dever e também uma glória: Evangelizar!
Prosseguir Tua obra de Mestre e Salvador significa levar os segredos do Teu Coração ao âmago da sociedade, tão sedenta por esses pulsares de amor terreno e eterno. Amém!

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