"Se me amais, observareis os meus mandamentos." (Jo 14,15)
O Amor
Chiara Lubich
Durante a Última Ceia, antes de
deixar os seus amigos e voltar ao Pai, Jesus quer uni-los estreitamente a si e
uns aos outros com o vínculo mais forte e duradouro: o amor. Ele ama “até o
fim”, com o amor “maior”, que chega a “dar a vida”, e que, em troca, deseja ser
amado com o mesmo amor.
O amor que Jesus quer que tenhamos
não é um simples sentimento: é fazer a sua vontade. Essa vontade é revelada nos
seus mandamentos: trata-se sobretudo do amor ao irmão e à irmã e do amor mútuo.
Para Jesus, essa é uma verdade de tal importância que, nestas suas últimas
palavras dirigidas aos seus discípulos, Ele repete esse conceito com força por
mais três vezes: “Quem acolhe e observa os meus mandamentos, esse me ama”; “Se
alguém me ama, guardará a minha palavra”; “Quem não me ama, não guarda as
minhas palavras”.
“Se me amais, observareis os meus
mandamentos”.
Por que devemos observar os seus
mandamentos?
Tendo sido criados à sua “imagem e
semelhança”, nós somos como que um “tu” que está diante de Deus, com a
capacidade de estabelecer uma relação pessoal, direta com Ele: uma relação de
conhecimento, de amor, de amizade, de comunhão.
Eu “sou o que sou” na proporção em
que respondo com o meu sim ao projeto de amor que Ele reserva para mim.
Quanto mais for vivida, aprofundada e
enriquecida essa relação com Ele, essencial à natureza humana, tanto mais o
homem e a mulher se realizam na sua personalidade mais autêntica.
Vejamos Abraão. Toda vez que Deus lhe
pede algo, mesmo quando parece a coisa mais absurda – como deixar a própria
terra em busca de um destino desconhecido por ele, ou sacrificar-lhe o único
filho –, ele adere prontamente, confiante em Deus. E diante dele se abre um
futuro inimaginável.
O mesmo acontece com Moisés. No Monte
Sinai o Senhor lhe revela a sua vontade no decálogo. E da sua adesão à Lei
nasce o povo de Deus.
Assim também Jesus. Nele, o sim ao
Pai atinge toda a sua plenitude: “Não seja feita a minha vontade mas a tua!”.
Seguir Jesus significa cumprir do
melhor modo possível a vontade do Pai, tal como Ele a revelou a nós, e como Ele
a cumpriu em primeiro lugar.
Dessa forma, os mandamentos que Jesus
nos deixou são um auxílio para vivermos conforme a nossa natureza de filhos e
filhas de um Deus que é Amor. Eles não são, portanto, imposições arbitrárias,
nem superestruturas artificiais e, muito menos, uma alienação. Nem sequer são
ordens como de um patrão a empregados. São, mais que tudo, a expressão do seu
amor e do seu carinho, seu desvelo pela vida de cada um de nós.
“Se me amais, observareis os meus
mandamentos”.
Como viveremos, então, esta Palavra
de Vida?
Procurando escutar com atenção aquilo
que Jesus nos diz no Evangelho – os seus mandamentos – e deixando que, durante
o dia, o Espírito Santo nos lembre das suas palavras. Ele nos ensina, por
exemplo, que não basta não matar: deve-se evitar inclusive a ira contra os
irmãos; que não se pode cometer adultério, mas nem sequer se deve desejar a
mulher do próximo. “Se alguém te der um tapa na face direita, oferece-lhe
também a esquerda!”; “Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos
perseguem”.
Mas, sobretudo, procuremos viver
aquele mandamento que Jesus chamou de “seu”, e que resume todos os outros: o
amor mútuo. Com efeito, “o amor é o cumprimento perfeito da lei”, é “o caminho
superior” que somos chamados a percorrer.
Foi o que entendeu muito bem o padre
Dario Porta. Ele era um sacerdote de Parma (Itália), que morreu na Quinta-Feira
Santa de 1996. Nos primeiros anos de sacerdócio, ele tinha vivido de modo
exemplar o seu relacionamento com Deus; mais tarde ele também descobriu melhor
que Jesus devia ser reconhecido em cada próximo. E esse modo evangélico de amar
se tornou a sua paixão. Para permanecer fiel a este seu empenho, ele passou a
dar cada vez mais atenção aos outros, colocando em segundo lugar seus programas
pessoais, chegando até a escrever, um dia, no seu diário: “Entendi que a única
coisa que no final se gostaria de ter feito é: ter amado o irmão”.
Que toda noite também nós, como ele,
possamos nos perguntar: “Amei sempre os irmãos?”.

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