O TEMPO DO ADVENTO: História, Estrutura, Teologia, Espiritualidade, Pastoral.
O TEMPO DO ADVENTO:
História, Estrutura, Teologia, Espiritualidade, Pastoral.
1) A HISTÓRIA E O
SIGNIFICADO DO TEMPO DO ADVENTO
Deveras, o Advento, um tempo litúrgico profundamente enraizado na tradição cristã, carrega consigo um significado multifacetado que reflete tanto a espera pela celebração do Natal quanto a antecipação da segunda vinda de Cristo. As origens do Advento, embora envoltas em certa incerteza, remontam ao século IV. Este período é marcado por uma dualidade de propósitos: preparação para o Natal e celebração do Advento escatológico, ou seja, a vinda gloriosa de Cristo.
Esta dualidade tem sido objeto de discussão ao longo dos séculos, com algumas correntes de pensamento enfatizando o Advento como preparação para o Natal, enquanto outras se concentram na dimensão escatológica. A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II fez questão de preservar ambas as dimensões, integrando a preparação para o Natal com a expectativa da segunda vinda de Cristo.
Enquanto o Ocidente desenvolveu o Advento como um período litúrgico distinto, com características próprias e um tempo de preparação mais extenso, o Oriente cristão adota uma abordagem diferente, com uma preparação mais breve parao Natal.
Em conclusão, o Advento é um tempo de reflexão e antecipação que serve como ponte entre o passado, presente e futuro na fé cristã. Representa um momento para os fiéis refletirem sobre a vinda histórica de Jesus no Natal, enquanto também voltam seus corações e mentes para a esperança da Sua segunda vinda. Este período dual simboliza uma jornada espiritual que abraça tanto a memória quanto a esperança, convidando os fiéis a uma preparação consciente e espiritualmente enriquecedora para ambos os eventos significativos na vida da Igreja.
2) A ESTRUTURA LITÚRGICA DO ADVENTO NO MISSAL DE PAULO VI
No primeiro período, que vai do primeiro domingo do Advento até 16 de dezembro, a ênfase recai sobre o aspecto escatológico. Os textos litúrgicos e a leitura quase diária do profeta Isaías durante este tempo orientam os fiéis para a espera da vinda gloriosa de Cristo. Este período é marcado por uma expectativa fervorosa do cumprimento das promessas divinas, uma espera ativa que mobiliza o coração dos fiéis para um encontro definitivo com o Salvador.
A partir de 17 de dezembro até o dia 24, a liturgia se volta mais diretamente para a preparação do Natal. Os textos, tanto na missa quanto na Liturgia das Horas, concentram-se em antecipar a celebração do nascimento de Cristo. Os dois prefácios do Advento sintetizam bem esses dois aspectos, refletindo a dualidade desse tempo litúrgico.
Três figuras bíblicas emergem como características do Advento: o Profeta Isaías, João Batista e Maria. A tradição escolhe Isaías pelas suas mensagens de esperança, que confortaram o povo eleito em momentos cruciais de sua história. Suas palavras, proclamadas durante o Advento, ressoam como um anúncio de esperança eterna.
João Batista, o último dos profetas, simboliza a confluência da história anterior com o cumprimento da promessa messiânica. Ele é o ícone do espírito do Advento (cf. Lc 1, 77-78), preparando os caminhos do Senhor (cf. Is 40, 3) e apontando Cristo já presente entre o povo (cf. Jo 1, 29-34).
O Advento, enfim, é o Tempo Litúrgico em que (de modo diverso dos outros em que infelizmente se acha ausente) se dá destaque, de maneira feliz, à cooperação de Maria no mistério da redenção. Maria imaculada é o protótipo da humanidade redimida, o fruto mais excelso da vinda redentora de Cristo. Nela, como canta o prefácio da solenidade, Deus nos deu “as primícias da Igreja, esposa de Cristo sem ruga e sem mancha, resplandecente de beleza”.
Em resumo, o Advento é um tempo de dupla expectativa: prepara-se para o Natal, recordando o nascimento de Jesus, e aguarda-se a segunda vinda de Cristo. As figuras de Isaías, João Batista e Maria são fundamentais nesse processo, cada uma contribuindo com aspectos únicos para a rica tapeçaria desse tempo litúrgico. O Advento, portanto, não é apenas um período de espera, mas um tempo de profunda reflexão e renovação espiritual.
3) TEOLOGIA DO ADVENTO
Primeiramente, o Advento destaca a "dimensão histórico-sacramental" da salvação. Neste período, reconhecemos Deus como o protagonista da história humana, que se manifestou plenamente em Jesus de Nazaré, a expressão viva do Pai (cf. João 14, 9). Esta dimensão histórica ressalta a salvação concreta de toda a humanidade, evidenciando o vínculo intrínseco entre evangelização e promoção humana.
Ademais, o Advento é marcado fortemente pela "dimensão escatológica" do mistério cristão. A salvação prometida por Deus, conforme 1 Tessalonicenses 5, 9 e 1 Pedro 1, 5, é uma herança que se revelará plenamente no fim dos tempos. A história é vista como o palco onde as promessas divinas se realizam, aguardando o “dia do Senhor” (cf. 1Coríntios 1,8; 5,5). Cristo, que veio em carne, ressuscitou e apareceu aos apóstolos e testemunhas escolhidas por Deus (Atos 10, 40-42), e retornará gloriosamente no fim dos tempos (Atos 1,11). A Igreja, em sua jornada terrena, vive a tensão entre o "já" da salvação realizada em Cristo e o "ainda não" de sua plena manifestação.
Finalmente, o Advento, ao revelar as dimensões verdadeiras, profundas e misteriosas da vinda de Deus, também recorda o compromisso missionário da Igreja e de cada cristão para com o advento do Reino de Deus. A missão da Igreja, fundamentada no anúncio do Evangelho a todas as nações, baseia-se essencialmente no mistério da vinda de Cristo, enviado pelo Pai, e na vinda do Espírito Santo, mandado pelo Pai e pelo Filho.
Assim, o Advento não é apenas uma preparação para o Natal, mas um tempo de reflexão profunda sobre o papel de Cristo na história da salvação, a espera pela sua segunda vinda e o contínuo chamado à ação missionária da Igreja e dos fiéis, em prol da realização do Reino de Deus.
4) A ESPIRITUALIDADE DO ADVENTO
O Advento também traz à tona a realidade de um Deus que entra na
história e questiona o homem. A vinda de
Deus em Cristo exige uma contínua conversão, uma novidade que é luz e que requer um despertar decidido
e pronto (cf. Romanos 13, 11-14).
Especialmente por meio da pregação de João Batista, o Advento se apresenta como um convite à conversão, preparando os
caminhos para acolher o Senhor que
vem.
Finalmente, o Advento é um tempo de educação para a atitude dos “pobres de bem-aventurados (cf. Mateus 5, 3-12). Assim, o Advento não é somente um período Javé” - mansos, humildes e disponíveis, aqueles que Jesus proclamou de preparação para o Natal, mas um momento de profunda reflexão e renovação espiritual, onde a espera, a esperança e a conversão se entrelaçam para formar um caminho de fé e de aproximação mais íntima com o divino.
5) A PASTORAL DO ADVENTO
O Advento, com sua mensagem de espera e esperança ante a vinda do Senhor, tem o papel vital de formar comunidades cristãs e crentes que atuem como sinais alternativos em uma sociedade frequentemente marcada pelo desespero, pela fome e pelo subdesenvolvimento. Essa conscientização da dimensão escatológica da vida cristã não deve levar à inércia, mas sim estimular e fortalecer o compromisso com a redenção da
história humana e a preparação para o Reino dos Céus, por meio do serviço dedicado aos outros aqui na Terra.
De acordo com o Concílio Vaticano II (Gaudium et Spes 38), Cristo, através do seu Espírito, atua no coração dos homens não apenas para despertar o anseio pelo mundo futuro, mas também para inspirar, purificar e fortalecer o compromisso com a humanização da vida terrena.
Portanto, se a pastoral do Advento for conduzida e iluminada por estas profundas e estimulantes perspectivas teológicas, encontrará na liturgia deste tempo um recurso essencial e uma oportunidade propícia para enriquecer os cristãos e construir comunidades que sejam verdadeiramente a alma do mundo. Assim, a pastoral do Advento se torna uma poderosa ferramenta para infundir esperança, incentivar a ação transformadora e reafirmar o compromisso cristão com os valores do Evangelho em meio aos desafios da sociedade contemporânea.
REFERÊNCIAS
BERGAMINI A. Advento in Dicionário de Liturgia. São Paulo: Paulista/Paulinas, 1992, pp. 12-14.

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