Sacramento da Confirmação - 02
CONCEITO E DEFINIÇÕES:
A crisma[1] é o sacramento pelo qual o batizado mediante a imposição das mãos, a unção e oração recebe a plenitude do Espírito Santo por ser confirmado na sua vida sobrenatural e por professar publicamente e com coragem a sua fé. Santo Tomás de Aquino define da seguinte maneira: “O sacramento que confere ao batizado a fortaleza espiritual: sacramentum, quo spirituale robur regeneratur confertur.”[2]
No Batismo o cristão é introduzido na comunidade cristã, pelo sacramento da Crisma ele confirma pessoalmente este ingresso. Confirma e ratifica a decisão que pais e padrinhos tomaram em seu lugar na hora do batismo. Por isso, é o sacramento dos que já chegaram a uma certa maturidade na fé.
A confirmação é uma decisão pessoal, pis envolve uma opção consciente, uma tomada de atitude e responsabilidade. É o sacramento do Espírito Santo. Não vemos o Espírito Santo, mas podemos expressá-lo pelo nosso testemunho. O Espírito Santo agiu na criação, nos profetas, nos reis, nos sacerdotes, no meio do Povo de Israel, em Cristo e na Igreja. É o início da vida tendo como tarefa primeira a união e o amor. Os Juízes e Reis do Antigo Testamento tornam-se audazes, fortes e intrépidos. Garantem a unidade de Israel. Sempre são ungidos pelo Espírito santo. Os profetas anunciam que haverá um novo profeta. O mundo é um deserto árido. Mas com a vinda do espírito, as terras serão fecundadas pelos rios e fontes. Os desertos serão lavouras fecundas. Essa abundância do Espírito é prometida para toda a humanidade. A fusão do Espírito é uma nova-criação. Haverá o renascimento da verdadeira religião, a verdade e a justiça reinarão nos corações de todos. É o tempo de fidelidade a aliança. Tempo de maturidade. Tudo o que é velho será renovado. O Espírito suscita a vida. Cristo promete a vinda do Espírito.
O Batismo de Cristo foi o anúncio de como a Igreja seria cheia do espírito, do amor, da consagração. O Espírito que Cristo promete é o da verdade. Para anunciar a verdade, os Apóstolos teriam que sofrer muito. Se Cristo foi a testemunha verídica da verdade e teve que morrer na cruz, essa morte será também a dos seus discípulos. A torre de babel significou a confusão e o Pentecostes à fusão; Babel é desunião, Pentecostes é a união. Babel é incompreensão, guerra, egoísmo; Pentecostes é compreensão, paz, altruísmo; Babel é mentira; Pentecostes é verdade. Babel é orgulho, Pentecostes é humildade e serviço. O Pentecostes foi a consagração de todos num só povo. Foi o primeiro testemunho de unidade pública que os Apóstolos deram de Deus e de Cristo. E muitos se converteram à Igreja. Aqui nasceu a Igreja, como a comunidade dos que seguem Cristo no amor e na fé. Cristo não mais usa os milagres, como a ressurreição do morto, a cura de um leproso, de um cego ou da multiplicação do pão para propagar a sua doutrina de vida. Usa o milagre da unidade. Deus quer ver os homens em comunhão. Somente a partir daí o mundo será uma eucaristia, uma ação de graças eterna. Símbolo do vento e do fogo, na Sagrada Escritura o Espírito Santo era simbolizado pelo fogo e pelo vento. Por este motivo o Pentecostes é descrito com esses dois fenômenos. Quando o hagiógrafo quer expressar uma intervenção de Deus ou uma realização do plano de Deus, usa esses sinais. Nas grandes epifanias ou manifestações de Deus sempre aparecem esses sinais.
Com o Pentecostes nasce o novo mundo: a Igreja, que significa a assembléia, a Qahal Yahweh, ecclesia, o grupo de pessoas que seguem a Cristo. Somos Igreja quando damos testemunho de amor e de fraternidade, por isso a Igreja não são as paredes, mas as pessoas e nela somos servos prestativos. Esse testemunho de unidade dado pelos Apóstolos é o início dos últimos tempos. Estamos a caminho do Reino definitivo. Céu será a comunhão perfeita dos homens entre si e com o Pai pelo Espírito Santo, que é a condição de possibilidade. Crisma é o Pentecostes do cristão; é aceitação total e consciente de Cristo; é a confirmação da entrada na comunidade.
Comprometer-se de comunicar a grande transformação que o amor de Cristo causou com a Páscoa, eis a nossa missão! Ser presença atuante de Cristo no meio em que vivemos. A missão do apóstolo é divulgar a Igreja. Por isso o crismado é um missionário e ser missionário não é só percorrer cidades e campos pregando palavras das Escrituras, é formar uma comunidade, gerador de igrejas como os apóstolos foram as mães fecundas da Igreja: foram de cidade em cidade organizando comunidades de fé e caridade. É o sacramento do profeta, da profecia. Profetizar, falar em nome de Deus e é Deus que enche os lábios dos profetas de palavras. Moisés foi um sofredor. Anunciou a palavra ao rei e ao povo. Foi maltratado, desprezado, desacreditado. Mas libertou o povo da escravidão. “Preferiu participar da sorte infeliz do povo de Deus”[3]. É pelo sacramento da Crisma que a Igreja recebe dons. São os carismas que significa graça, presente, gratuidade. Os dons, as capacidades, devem ser exercidas para o bem comum.
Assim como num corpo existe muitos membros e cada um te uma função específica, assim na Igreja cada cristão tem um Dom, uma tarefa a desempenhar. Tudo estará bem quando todos desempenharem com responsabilidade suas tarefas. Deus nos concede carismas para o bem da comunidade. Pela crisma não somos uma propriedade particular; mas uma propriedade da Igreja e de Deus. Uma das características daquele que recebe o sacramento da crisma é firmeza na verdade e na justiça. A missão do crismado é garantir a fraternidade; é continuar a humanidade nova. “É o espírito da verdade que o mundo não conhece, mas vós o conheceis, porque permanecerá convosco e estará em vós”[4]. Somente a verdade é que liberta e muitos querem permanecer na mentira e o cristão denuncia a falsidade, por isso é um perseguido, por causa de Deus. No entanto Cristo nos diz: “Bem-aventurados os que forem perseguidos por causa da justiça”.
A Crisma é o sinal do homem adulto na fé. Só os adultos têm coragem. Por adulto entendemos aquele que quer dar sua via aos outros; é aquele que não mais se pertence a si mesmo, mas se consagrou à comunidade e a Deus. Adulto é aquele que se doa aos outros para encontrar a vida e o próprio Deus. Adulto foi Cristo que nos amou ao ponto de dar a própria vida pela humanidade. Adultos foram os apóstolos e mártires que deram até o sangue em testemunho de Cristo. Adulto é aquele que é capaz de sofrer por causa da justiça e do bem: o adulto é capaz de ir à cadeia, passar fome e sede por causa da verdade.
O infantil, o imaturo mente, desdiz o que faz e o que afirmou. Infantil é aquele que somente quer ser amado. Infantil é aquele que desconfia, que anda mascarado, escondendo os próprios defeitos. Infantil é aquele que contesta a religião sem conhecê-la e não testemunha nada. A Confirmação faz do cristão um profeta. É a principal tarefa do crismado: pregar o Evangelho. Profetizar é testemunhar realidades espirituais, invisíveis. É se alguém que proclama, sobre os telhados, as maravilhas do Senhor. A crisma faz profetas e mártires. Mártir é o mesmo que testemunha. Existem mártires que testemunharam a Cristo até o derradeiro derramamento de sangue.
O crismado recebe o Espírito Santo e procura ser fiel. A palavra confirmação significa: corroboração, consolidação. Consolida e corrobora o que foi recebido no Batismo. Era também chamado de consignação. Os neófitos saiam da piscina e todo o seu corpo era ungido com o Santo Crisma. Eram revestidos com veste branca e recebiam uma vela. Vinham então na presença do bispo que lhes fazia a Segunda unção sobre a fronte: fazia-se a unção em forma de cruz: consignação. “Pelo sacramento da confirmação são vinculados mais perfeitamente à Igreja: enriquecidos de especial força do Espírito Santo, e assim estreitamente obrigados à fé que, como verdadeira testemunhas de Cristo, devem difundir e defender, tanto por palavras por obras”[5].
O óleo foi sempre um símbolo das bênçãos divinas. Sinal de prosperidade e fecundidade da terra, sinal da aliança entre os homens e com Deus. Sua privação é sinal de infidelidade. Sinal de Salvação: “Vou mandar-vos trigo, vinho e óleo e deles sereis fartos”[6]. O óleo derramado sobre a cabeça era sinal de consagração e de pertença a Deus. Era ungido todo o corpo, como símbolo de total doação a Deus.
A imposição das mãos simboliza o poder. A entrega dos dons do Espírito Santo a nós. Por este sinal recebemos o Espírito Santo a nós. E tudo o que falarmos será obra do Espírito Santo. Deixar-se colocar sob as mãos é comprometer-se fiel e disponível à inspiração do Espírito Santo.
O óleo era usado pelos atletas para robustecer os músculos: recorda-nos que devemos ser “atletas de Cristo”, através de testemunhos corajosos diante do mundo. Por isso a crisma é o sacramento do apostolado dos leigos. O perfume do bálsamo que é misturado com o óleo significa que todos nós devemos ser “o perfume de Cristo”. Se o mundo caminha para a divisão é porque os cristãos não vivem a verdade e não são ainda suficientemente instruídos quanto à sua missão de mártires da Igreja.
O Brasil necessita de pessoas adultas na fé para enfrentar tantas superstições. Por isso a Crisma é o sacramento do catequista, do anunciador do Evangelho. O bispo dá um álapa significando o fim do tempo da escravidão e o início da liberdade, como sinal de que deve estar disposto a tudo sofrer pela Fé. O escravo romano quando libertado, recebia de seu dono um tapinha como sinal de liberdade. Portanto se o batismo nos introduz no seio da Igreja, o Crisma nos obriga ao apostolado. Os efeitos e a matéria deste sacramento têm sugerido vários nomes pelos quais ele tem sido designado. Assim era chamado antigamente sigilo, sinal do Senhor, perfeição, consumação ou então unguento, unção, ou ainda Dom, imposição das mãos.
Hoje é correntemente denominado: confirmação ou crisma. “A Confirmação é um rito sacramental, executado pelo Bispo, ou por um Presbítero, pelo qual se simboliza e confere aos batizados devidamente dispostos, com o aumento da graça santificante e um caráter indelével, uma graça peculiar, consistindo, sobretudo numa força sobrenatural, que os torna capazes de confessar e defender sua fé”[7].
Em suma, a Confirmação é o sacramento que nos dá o Espírito Santo, imprime na
alma o caráter de “soldado de Jesus Cristo” e faz-nos perfeitos cristãos, uma
vez que nos dá a abundância do Espírito Santo, isto é, abundância da sua graça
e de seus dons, que nos confirma ou fortifica na fé e nas outras virtudes
contra os inimigos espirituais. No batismo, recebemos o Espírito Santo; não,
porém, com a mesma abundância de graças como na Crisma.
[1] Este sacramento possui dois
nomes: crisma ou confirmação. Crisma, porque é unção com óleo do Crisma, devido
ao ato que se pratica ao conferi-la, isto é, a sagrada unção feita na fronte do
crismando, pois crisma é do grego e significa justamente unção; esta unção
deveria ser o resultado de uma opção consciente do jovem cristão, uma
confirmação daquilo que ele recebeu no batismo, ou seja, devido ao efeito que
este sacramento produz: pois fortifica e desenvolve a graça já recebida no
Batismo.
[2] S.c.G. IV, 60.
[3] Hb 11, 24ss.
[4] Jo 14, 17.
[5] LG 11.
[6] Jl 2, 19.
[7] VALE, Cipriano. O
Sacramento da Confirmação. Braga, 1927, p. 9.
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