Formação Batismal - Nº 01

 

1 - Pré-história do batismo

 1.1- Introdução

              A palavra Batismo vem da língua grega: Bapto-baptizo e significa primeiramente: imergir, afundar, afogar. Simultaneamente, assume o sentido de: purificar, destruir, lavar.

 1.2- No paganismo

              A Pré-história do batismo se fundamenta, no desejo inerente a todo homem de purificar a sua consciência de tudo aquilo que julga ser falta ou pecado. Historicamente, tal, desejo tem sido expresso através de ritos de abluções. Não só as abluções sagradas do povo judeu, mas também o culto dos deuses pagãos, constituem aquilo que podemos denominar a pré-história remota do batismo cristão. Também religiões do Oriente Médio e da Índia, além das seitas Judaicas do judaísmo tardio, praticam abluções rituais.

Todas as religiões possuem o seu rito de purificação e em quase todas é usado o rito de ablução. (lavar)

1.3- No Antigo Testamento

               No Antigo Testamento, as purificações estão inseridas num contexto ritual para significar pureza interior e exterior. O impuro e o sagrado se transmitem pelo contato; é, pois, normal  o uso da água para purificar-se do próprio contato. As abluções purificadoras podem atingir tanto as pessoas como as coisas imundas. Falando dos animais impuros (ratos, lagartos, etc.). O autor sagrado comenta: Ler Lev.11,29-32. Também as pessoas podem torna-se impuras: 2 Rs. 5,14; os sacerdotes: Ex. 40,12.

Aos poucos se desenvolve uma teologia da purificação e da água.
Ez  36,23-28

              No judaísmo tardio podem distinguir três momentos particulares de grande significação:

a)      o batismo dos prosélitos

b)      o batismo das seitas

c)      o batismo de João Batista

Podemos distinguir dois tipos de purificação no judaismo:

 a)      a purificação prescrita ao judeu que havia contraído impurezas legais, por ir contra a Lei da Pureza (Lev. Caps. 11-16)

 b)      a purificação prescrita como iniciação:

- ao judaísmo (batismo dos prosélitos)

- a comunidade dos filhos da aliança (purificação de Qumrã)

 A-    Purificações legais:

 a)      A tradição Bíblica:

 São abluções parciais (mãos, pés), ou banhos, ou lavagem de vestes, prescritas para readquirir a pureza necessária, seja para viver em contato com os membros da comunidade sem lhes comunicar a própria impureza, seja para sentir-se em condições de realizar as ações de culto previstas, (orações e sacrifícios).

Tais abluções tem, portanto, a finalidade de reintegrar inteiramente o judeu na realidade de seu povo, por eleição, uma “nação sagrada”.

Mesmo que na origem desses ritos de purificação se possam e se devam descobrir motivos higiênicos, ou de interpretação mágica e animista provenientes de culturas anteriores e de uma religiosidade naturalista, incorporadas à tradição religiosa judaica, ele tem por objetivo reafirmar, também exteriormente, a idéia de santidade exigida de quem deseja fazer parte do povo Jahweh, que é um Deus santo: “Sede santos, porque eu sou santo”(Lv. 11,44; 19,2; 21,8). Por esse motivo, à lei da pureza segue imediatamente a lei da santidade (Lv. Caps. 17-26). São dois aspectos de uma mesma exigência divina. Contra as práticas meramente formalista das purificações, protesta veemente Isaías: Is. 1,15-17.

Uma purificação nova operada pelo próprio Deus resulta num distanciamento do mal, manifesta a mesma santidade de Deus no povo, e é acompanhada da efusão de um coração novo e do próprio Espírito de Deus: Ez. 36,23-27.

b)      A tradição rabínica

Na tradição rabínica, as purificações ocupam lugar de grande importância, como se pode perceber na posição polêmica de Jesus com os fariseus – (Mt. 15,1-2; Mc. 7,1-5). Essas purificações são hoje  conhecidas principalmente através dos tratados da MISHNÁ, onde se lê por exemplo: “Lavam-se as mãos para comer qualquer alimento profano; mas, para os alimentos que os sacerdotes comem, para os dízimos e alimentos sagrados, devem-se tomar o banho. No que se refere às águas da purificação, se as mãos se tornam impuras, todo o corpo é impuro”.

B-     Purificação  judaica  de  iniciação:

a)      O batismo  dos  prosélitos:

“Prosélito” é um termo grego que significa “aquele que se aproxima, que se agrega”. Segundo a tradição hebraica, indica propriamente o estrangeiro, o não judeu que vai morar em Israel e que ao povo judeu se agrega pela observância de suas leis civis e religiosas.

Aos poucos, contudo, se desenvolve a idéia de que pagão é impuro e que não pode se unir ao povo judeu sem prévio rito de purificação chamado “batismo dos prosélitos”. Diz a MISHNÁ: “Convém advertir o candidato que vem para tornar-se prosélito nestes tempos difíceis, da condição de perseguição em que Israel se encontra. Quando demonstra saber estas coisas, então deve-se instruí-lo  sobre os mandamentos simples e sobre os mais graves, como também as punições que resultam da sua não observância. Deve-se instruí-lo, igualmente, sobre a recompensa que obterá  por sua fidelidade e que está reservada para o século futuro, tanto para Israel como para os justos. Seja circuncidado. Depois de curado, seja batizado por dois rabinos que o instruam sobre mandamentos. Em seguida, em tudo viva como um israelita.”

Nos comentários rabínicos se lê, igualmente,: “Como os israelitas foram introduzidos na Aliança através de três coisas, isto é, a circuncisão, o banho-passagem do mar Vermelho e os sacrifícios, assim também deve ocorrer com os prosélitos...”   

Percebe-se que o banho deixa de ser simples rito de purificação, para tornar-se rito de iniciação no Povo de Deus, no mesmo plano que a circuncisão (sinal de participação na Aliança) e o sacrifício do Sinai (sacrifício pascal).

A circuncisão sofre, também, quanto ao seu sentido, verdadeira evolução.  Usada entre os povos como rito de iniciação ao matrimônio (Ex 4,25) e de integração ao clã (Gn 34,14), passa a ter  para o povo judeu, o sentido de participação na Aliança (Gn 14,11), de ingresso no povo escolhido (Ex 12,44). Na literatura profética, porém, a circuncisão assume dimensão espiritual. Jeremias fala da circuncisão do coração (Jr 4,4; 6,10), que consiste na procura de Deus na fidelidade interior. Sem isso a circuncisão carnal mão passa de um simples gesto material.

No Novo Testamento, como sabemos pelo relato de Lucas (Lc 1,29;2,21), a circuncisão é realizada oito dias após o nascimento. Sua introdução no povo eleito é atribuída a Abraão pelo código sacerdotal (Gn 17,9-14), tornando-se, assim, sinal de pertença à posteridade de Abraão.

São Paulo, em seus escritos, afirma que a circuncisão é um rito provisório, a ser substituído pelo batismo; algo material que não pode conferir a justiça. Já não tem, pois, nenhum sentido (Gl 6,15; Cl 2,11). Passa-se agora a circuncisão em Cristo conferida pelo batismo: “ Nele foste circuncidados com uma circuncisão que não é feita pela mão do homem, tendo-vos  despojado inteiramente do corpo carnal, enfim pela circuncisão em Cristo” (Cl 2,11). Na carta aos Filipenses, São Paulo assume a pregação profética, afirmando que o Cristão está circuncidado na coração pelo Espírito.

 Destes textos rabínicos se deduz, primeiramente, a necessidade de o batismo dos prosélitos ser precedido de um tempo conveniente de preparação. Em segundo lugar, a importância do batismo tornar-se, para o prosélito, uma preparação que adquira valor de verdadeira iniciação, porque é uma participação na Aliança que poderá acontecer novamente com a circuncisão, dado que se repetiu o acontecimento da passagem do mar Vermelho, o batismo.

b) O Batismo de Qumrã

Perto da Costa do norte-ocidental do mar Morto, num lugar de nome Qumrã, as recentes escavações trouxeram à luz uma imensa construção , que a partir de argumentos razoáveis, se deduz que tenha sido a sede principal de grupos espirituais hebreus, já conhecidos no primeiro século antes de Cristo com o nome de Essênios. Tudo leva a crer que a sua origem estava ligada aos Hasidím, judeus piedosos que rejeitavam a helenização. Caracterizavam-se por uma rigorosa vida ascética no celibato e por forte espiritualidade, que se expressava, inclusive, na rejeição do sacerdócio oficial, do qual estavam separados até mesmo pelo calendário religioso, pois tinham calendário próprio. Consideravam-se “filhos da Aliança” e se denominavam “Comunidade dos filhos da Aliança”.

Inserido num processo de iniciação, que prevê até mesmo um período de catecumenato (um ano de prova ou dois anos de noviciado), o rito batismal de Qumrã põe em evidência a dimensão de purificação. Os textos do ritual, por sua vez, revelam uma estrutura veterotestamentária: retrospectiva histórica, confissão dos pecados, bênçãos e maldições.

Nas grutas de Qumrã foram descobertos manuscritos preciosos, quer de textos bíblicos, quer de manuais de regras de vida em comunidade e regras disciplinares. Desses textos se conclui que, em Qumrã, a purificação se reveste de especial importância e é tida em grande estima, até mesmo mais que nas tradições rabínicas. A característica mais marcante, contudo, é a dimensão profética atribuída à purificação, em seguimento à própria espiritualidade dos profetas. A purificação é considerada como conseqüência da conversão do coração

Assim se exprime o Manual de Disciplina da Comunidade Qumrã: “O ímpio não será purificado pelas águas de expiação, nem será jamais purificado com águas lustrais; não se santificará entrando nos banhos e nos rios, e não se purificará absolutamente, em água. É impuro e assim permanecerá, enquanto continuar a menosprezar os Mandamentos de Deus, sem corrigir-se na comunidade de sua eleição.” (IQS, III)

A purificação é considerada, pois, como ação divina que acontecerá no momento de sua visita, isto é, no tempo messiânico. Será uma purificação no Espírito de Santidade, àqueles que Deus escolheu. Como se percebe, a admissão à purificação adquire valor de iniciação.

Conclusões:

1-      Enquanto os outros povos antigos atribuem à água o poder purificador. Para o povo judeu é Deus mesmo que age, purificando através dos ritos correspondentes, pois ele é o senhor das águas e dos abismos (Sl 135,6;107,7ss).

2-      Tanto o batismo dos prosélitos como a purificação de Qumrã são verdadeiros ritos de iniciação, o primeiro ao judaísmo e o segundo à “Comunidade dos filhos da Aliança”.

3-      Ambos os ritos propõem, num certo sentido, um ambiente no qual se pode inserir, sem maiores dificuldades, tanto o batismo no Jordão, como o próprio batismo cristão. Isso ocorre não tanto por causa do seu simbolismo da purificação pela água, mas, principalmente pelo seu significado espiritual e pelos valores que procedem da Escritura, a saber: a mudança de vida, afastando-se daquilo que Jahweh reprova, e a infusão do Espírito de Deus.

4-      Constitui, no entanto, dedução precipitada afirmar que o batismo dos prosélitos e a purificação de Qumrã fundamentam o batismo cristão. Deve-se, na verdade, exclui qualquer dependência. Os primeiros testemunhos do batismo dos prosélitos aparecem em época posterior ao surgimento do cristianismo; em relação à purificação de Qumrã, embora existam linhas bíblicas convergentes, o caráter sacramental do batismo cristão proveniente do acontecimento CRISTO, não se manifesta, absolutamente, em Qumrã, onde se desenvolve ainda uma mensagem de anúncio de realidade futura.

Os batismos veterotestamentários, até mesmo o de João Batista, são prefigurações e preparação do batismo cristão. Embora o batismo cristão apareça em forma de purificação ritual à semelhança dos artigos, é uma realidade inteiramente nova e assim é visto e valorizado pela Igreja primitiva. Cristo, no batismo por ele instituído, quer indicar que a passagem para vida nova já foi realizada por ele, através de sua morte e ressurreição.

O Batismo Cristão difere também essencialmente, dos mistérios gregos. O rito batismal cristão se baseia, fundamentalmente, na solidariedade ao gesto de outro, categoria esta pouco familiar ao mundo grego. Realmente, a Sagrada Escritura insiste que Jesus foi solidário com a humanidade, que na sua encarnação (Jo 1,9-14), que na sua morte redentora (Rm 5,6ss;  1Cor 15,3;  2Cor 5,14-15;  1Ts 5,10,etc.). A diferença entre os ritos mistéricos e o batismo cristão se situa no fato de não ser Cristo que morre e ressurge, ainda uma vez com os iniciados, mas o indivíduo que se torna pessoalmente solidário a tudo o que o Redentor realizou um dia com todos os seus, e os efeitos correspondentes.


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