Formação Batismal - Nº 01
1 - Pré-história do batismo
A palavra Batismo vem da língua grega:
Bapto-baptizo e significa primeiramente: imergir, afundar, afogar. Simultaneamente, assume o sentido de: purificar, destruir, lavar.
A Pré-história do batismo se fundamenta, no
desejo inerente a todo homem de purificar a sua consciência de tudo aquilo que
julga ser falta ou pecado. Historicamente, tal, desejo tem sido expresso
através de ritos de abluções. Não só as abluções sagradas do povo judeu, mas
também o culto dos deuses pagãos, constituem aquilo que podemos denominar a
pré-história remota do batismo cristão. Também religiões do Oriente Médio e da
Índia, além das seitas Judaicas do judaísmo tardio, praticam abluções rituais.
Todas as religiões
possuem o seu rito de purificação e em quase todas é usado o rito de ablução. (lavar)
1.3- No Antigo Testamento
Aos poucos se
desenvolve uma teologia da purificação e da água.
Ez 36,23-28
No judaísmo tardio podem distinguir três momentos particulares de grande significação:
a)
o batismo dos prosélitos
b)
o batismo das seitas
c)
o batismo de João Batista
Podemos distinguir dois tipos de purificação no
judaismo:
- ao judaísmo (batismo dos prosélitos)
- a comunidade dos filhos da aliança (purificação de
Qumrã)
Tais abluções tem, portanto, a finalidade de reintegrar inteiramente o judeu na realidade de seu povo, por eleição, uma “nação sagrada”.
Mesmo que na origem desses ritos de purificação se possam e se devam descobrir motivos higiênicos, ou de interpretação mágica e animista provenientes de culturas anteriores e de uma religiosidade naturalista, incorporadas à tradição religiosa judaica, ele tem por objetivo reafirmar, também exteriormente, a idéia de santidade exigida de quem deseja fazer parte do povo Jahweh, que é um Deus santo: “Sede santos, porque eu sou santo”(Lv. 11,44; 19,2; 21,8). Por esse motivo, à lei da pureza segue imediatamente a lei da santidade (Lv. Caps. 17-26). São dois aspectos de uma mesma exigência divina. Contra as práticas meramente formalista das purificações, protesta veemente Isaías: Is. 1,15-17.
Uma purificação nova operada pelo próprio Deus resulta num distanciamento do mal, manifesta a mesma santidade de Deus no povo, e é acompanhada da efusão de um coração novo e do próprio Espírito de Deus: Ez. 36,23-27.
b)
A tradição
rabínica
Na tradição rabínica, as purificações ocupam lugar de grande importância, como se pode perceber na posição polêmica de Jesus com os fariseus – (Mt. 15,1-2; Mc. 7,1-5). Essas purificações são hoje conhecidas principalmente através dos tratados da MISHNÁ, onde se lê por exemplo: “Lavam-se as mãos para comer qualquer alimento profano; mas, para os alimentos que os sacerdotes comem, para os dízimos e alimentos sagrados, devem-se tomar o banho. No que se refere às águas da purificação, se as mãos se tornam impuras, todo o corpo é impuro”.
B- Purificação judaica
de iniciação:
“Prosélito”
é um termo grego que significa “aquele que se aproxima, que se agrega”. Segundo
a tradição hebraica, indica propriamente o estrangeiro, o não judeu que vai
morar em Israel e que ao povo judeu se agrega pela observância de suas leis
civis e religiosas.
Aos
poucos, contudo, se desenvolve a idéia de que pagão é impuro e que não pode se
unir ao povo judeu sem prévio rito de purificação chamado “batismo dos
prosélitos”. Diz a MISHNÁ: “Convém advertir o
candidato que vem para tornar-se prosélito nestes tempos difíceis, da condição
de perseguição em que Israel se encontra. Quando demonstra saber estas coisas,
então deve-se instruí-lo sobre os
mandamentos simples e sobre os mais graves, como também as punições que
resultam da sua não observância. Deve-se instruí-lo, igualmente, sobre a
recompensa que obterá por sua fidelidade
e que está reservada para o século futuro, tanto para Israel como para os
justos. Seja circuncidado. Depois de curado, seja batizado por dois rabinos que
o instruam sobre mandamentos. Em seguida, em tudo viva como um israelita.”
Nos comentários rabínicos se lê,
igualmente,: “Como os israelitas foram introduzidos na Aliança através de três
coisas, isto é, a circuncisão, o
banho-passagem do mar Vermelho e os sacrifícios, assim também deve ocorrer com
os prosélitos...”
Percebe-se que o banho deixa de ser
simples rito de purificação, para tornar-se rito de iniciação no Povo de Deus,
no mesmo plano que a circuncisão (sinal de participação na Aliança) e o
sacrifício do Sinai (sacrifício pascal).
A circuncisão sofre, também, quanto
ao seu sentido, verdadeira evolução. Usada entre os povos como rito de iniciação
ao matrimônio (Ex 4,25) e de
integração ao clã (Gn 34,14), passa
a ter para o povo judeu, o sentido de
participação na Aliança (Gn 14,11), de
ingresso no povo escolhido (Ex 12,44). Na literatura profética, porém, a
circuncisão assume dimensão espiritual. Jeremias fala da circuncisão do coração
(Jr 4,4; 6,10), que consiste na procura
de Deus na fidelidade interior. Sem isso a circuncisão carnal mão passa de
um simples gesto material.
No Novo Testamento, como sabemos pelo
relato de Lucas (Lc 1,29;2,21), a circuncisão é realizada oito dias após o
nascimento. Sua introdução no povo
eleito é atribuída a Abraão pelo código sacerdotal (Gn 17,9-14),
tornando-se, assim, sinal de pertença à posteridade de Abraão.
São Paulo, em seus escritos, afirma
que a circuncisão é um rito provisório, a
ser substituído pelo batismo; algo material que não pode conferir a
justiça. Já não tem, pois, nenhum sentido (Gl 6,15; Cl 2,11). Passa-se agora
a circuncisão em Cristo conferida pelo batismo: “ Nele foste circuncidados com
uma circuncisão que não é feita pela mão do homem, tendo-vos despojado inteiramente do corpo carnal, enfim
pela circuncisão em Cristo” (Cl 2,11). Na carta aos Filipenses, São Paulo
assume a pregação profética, afirmando que o Cristão está circuncidado na
coração pelo Espírito.
b) O Batismo
de Qumrã
Perto da Costa do norte-ocidental do
mar Morto, num lugar de nome Qumrã, as recentes escavações trouxeram à luz uma
imensa construção , que a partir de argumentos razoáveis, se deduz que tenha
sido a sede principal de grupos espirituais hebreus, já conhecidos no primeiro
século antes de Cristo com o nome de Essênios.
Tudo leva a crer que a sua origem estava ligada aos Hasidím, judeus piedosos
que rejeitavam a helenização. Caracterizavam-se por uma rigorosa vida ascética
no celibato e por forte espiritualidade, que se expressava, inclusive, na
rejeição do sacerdócio oficial, do qual estavam separados até mesmo pelo
calendário religioso, pois tinham calendário próprio. Consideravam-se “filhos
da Aliança” e se denominavam “Comunidade dos filhos da Aliança”.
Inserido num processo de iniciação,
que prevê até mesmo um período de catecumenato (um ano de prova ou dois anos de
noviciado), o rito batismal de Qumrã põe em evidência a dimensão de
purificação. Os textos do ritual, por sua vez, revelam uma estrutura veterotestamentária:
retrospectiva histórica, confissão dos pecados, bênçãos e maldições.
Nas grutas de Qumrã foram descobertos manuscritos preciosos, quer de textos bíblicos, quer de manuais de regras de vida em comunidade e regras disciplinares. Desses textos se conclui que, em Qumrã, a purificação se reveste de especial importância e é tida em grande estima, até mesmo mais que nas tradições rabínicas. A característica mais marcante, contudo, é a dimensão profética atribuída à purificação, em seguimento à própria espiritualidade dos profetas. A purificação é considerada como conseqüência da conversão do coração.
Assim se exprime o Manual de Disciplina da Comunidade Qumrã: “O ímpio não será
purificado pelas águas de expiação, nem será jamais purificado com águas
lustrais; não se santificará entrando nos banhos e nos rios, e não se
purificará absolutamente, em água. É impuro e assim permanecerá, enquanto
continuar a menosprezar os Mandamentos de Deus, sem corrigir-se na comunidade
de sua eleição.” (IQS, III)
A purificação é considerada, pois, como ação divina que acontecerá no momento de sua visita, isto é, no tempo messiânico. Será uma purificação no Espírito de Santidade, àqueles que Deus escolheu. Como se percebe, a admissão à purificação adquire valor de iniciação.
Conclusões:
1-
Enquanto os outros povos antigos atribuem
à água o poder purificador. Para o povo judeu é Deus mesmo que age, purificando
através dos ritos correspondentes, pois ele é o senhor das águas e dos abismos
(Sl 135,6;107,7ss).
2-
Tanto o batismo dos prosélitos como a
purificação de Qumrã são verdadeiros ritos de iniciação, o primeiro ao judaísmo
e o segundo à “Comunidade dos filhos da Aliança”.
3-
Ambos os ritos propõem, num certo sentido,
um ambiente no qual se pode inserir, sem maiores dificuldades, tanto o batismo
no Jordão, como o próprio batismo cristão. Isso ocorre não tanto por causa do
seu simbolismo da purificação pela água, mas, principalmente pelo seu
significado espiritual e pelos valores que procedem da Escritura, a saber: a
mudança de vida, afastando-se daquilo que Jahweh reprova, e a infusão do
Espírito de Deus.
4-
Constitui, no entanto, dedução precipitada
afirmar que o batismo dos prosélitos e a purificação de Qumrã fundamentam o
batismo cristão. Deve-se, na verdade, exclui qualquer dependência. Os primeiros
testemunhos do batismo dos prosélitos aparecem em época posterior ao surgimento
do cristianismo; em relação à purificação de Qumrã, embora existam linhas
bíblicas convergentes, o caráter sacramental do batismo cristão proveniente do
acontecimento CRISTO, não se manifesta, absolutamente, em Qumrã, onde se desenvolve
ainda uma mensagem de anúncio de realidade futura.
Os batismos veterotestamentários, até mesmo o de João
Batista, são prefigurações e preparação do batismo cristão. Embora o batismo
cristão apareça em forma de purificação ritual à semelhança dos artigos, é uma
realidade inteiramente nova e assim é visto e valorizado pela Igreja primitiva.
Cristo, no batismo por ele instituído, quer indicar que a passagem para vida
nova já foi realizada por ele, através de sua morte e ressurreição.
O Batismo Cristão difere também essencialmente, dos
mistérios gregos. O rito batismal cristão se baseia, fundamentalmente, na
solidariedade ao gesto de outro, categoria esta pouco familiar ao mundo grego.
Realmente, a Sagrada Escritura insiste que Jesus foi solidário com a
humanidade, que na sua encarnação (Jo 1,9-14), que na sua morte redentora (Rm
5,6ss; 1Cor 15,3; 2Cor 5,14-15;
1Ts 5,10,etc.). A diferença entre os ritos mistéricos e o batismo
cristão se situa no fato de não ser Cristo que morre e ressurge, ainda uma vez
com os iniciados, mas o indivíduo que se torna pessoalmente solidário a tudo o
que o Redentor realizou um dia com todos os seus, e os efeitos correspondentes.
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