A proliferação de medicamentos - Os “doentes imaginários”
A
proliferação de medicamentos - Os “doentes imaginários”
As cortinas abrem-se e no centro do palco, em uma mesa à meia luz, cercado por
notas de boticários, apresenta-se o protagonista Argan, o doente imaginário do
dramaturgo francês Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière
(1622-1673). 0 personagem passa todo o enredo teatral contando receituários,
reclamando de dores inexistentes, solicitando a ajuda de médicos charlatães e
vivendo em seu desvario hipocondríaco. Com a comédia 0 doente imaginário, Molière
lançou, ainda no século XVII, uma incisiva sátira à medicina e sua capacidade
de seduzir pessoas na busca de saúde a qualquer preço. 0 dramaturgo tratou a
medicina de seu tempo com suspeita, duvidando de suas formas terapêuticas, e
apresentou, na boca de Béralde, irmão do doente imaginário Argan, uma possível
solução para muitos males, a saber, viver, divertir-se, alegrar-se.
Tal qual Molière, podemos hoje desconfiar dessa proliferação de medicamentos
e de novas terapêuticas que nos cercam por todos os lados. Comerciais
mirabolantes em rede nacional oferecem curas para todos os males, chás e ervas
milagrosos, novos compostos rejuvenescedores, líquidos estranhos que prometem
o fim desde a hérnia de disco até uma displasia maligna. Imagens, mensagens e
enganos: nossa sociedade "medicalizada" dá à luz novos doentes
imaginários. Vivemos em uma sociedade analgésica, em que se teme a dor mais que
tudo. Curamos a dor de dentes, a dor nos rins, a dor na coluna e a dor da vida.
Por meio de novas famílias de antidepressivos, curamos doentes verdadeiros -
que realmente necessitam dessas drogas - e "hipnotizamos" também
aqueles que apenas não querem sentir o peso da vida.
No fim de 2010, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
lançou uma portaria para ter melhor controle sobre a circulação de medicamentos
antibióticos. Como bem sabemos, essa medida é de suma importância para a saúde
coletiva. 0 uso indiscriminado e errôneo de antibióticos colabora para o aumento
de resistência de bactérias.
Isso faz que as infecções bacterianas fiquem cada vez mais
agressivas, e que muitas drogas se tornem inúteis para a cura. Para se ter uma
idéia, a penicilina, primeira substância antibiótica sintetizada em
laboratório e usada como medicamento, que outrora tudo curava, hoje, com o
crescente aumento de resistência bacteriana, tomou-se praticamente inútil. Em
nossos dias, a medicina sanitária vive em alerta de um constante pesadelo: o
aparecimento de alguma patologia altamente transmissível. Hoje já temos
doenças que nenhuma droga consegue debelar.
Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, a medida da Anvisa não foi
aceita com entusiasmo. 0 brasileiro gosta de automedicação. Quem nunca recebeu
de um amigo uma dica infalível para curar essa ou aquela doença? Quem já não
indicou um remedinho aqui ou ali? Somos todos médicos, técnicos de futebol e
psicólogos sempre prontos para darmos nosso palpite. Nossa tendência
hipocondríaca talvez seja a explicação para termos, em média, mais de três
vezes o número de drogarias do que o indicado nos protocolos da Organização
Mundial da Saúde (0MS-0NU), apesar de não alcançarmos o número mínimo de
leitos hospitalares solicitados pelo mesmo organismo das Nações Unidas.
No Brasil, medicamento virou mercadoria, e drogarias e farmácias tornaram-se
rentáveis comércios dominados por um cartel de redes. Nesse ambiente de
concorrência, vale tudo: competição acirrada de preços, promoções, fusões de
redes de drogarias, cartões de fidelidade. Existem, nos grandes centros
urbanos, farmácias que comercializam de tudo. Recentemente, vi em um anúncio
no metrô de São Paulo promoções de eletrônicos em uma tradicional e requintada
drogaria. Se as drogarias se tornaram centros de compras, os hospitais
particulares transformaram--se em simulacros de hotéis, enquanto os postos
de saúde foram sucateados. Resta-nos a pergunta: será que a saúde pública é
realmente uma das prioridades em nosso mundo mercantil? Acredito que tal
questão não é fácil de ser respondida. Para aumentar o campo de reflexão, é
necessário observar o papel que as grandes indústrias farmacêuticas
desempenham. Elas pesquisam a cura, formulam medicamentos, introduzem novas
concepções de saúde e lançam "mercadorias" em um perfeito ambiente
corporativo-competitivo. Passa-se a buscar a saúde a qualquer custo, nessa
proliferação de novas drogas, nessa confusa relação entre desejo e
necessidade, nessa disseminação de "doentes imaginários".
Para finalizar este artigo, eu gostaria de fazer a seguinte
observação:
Eu não tenho nada contra medicamentos (até dediquei parte da minha
juventude cursando farmácia). Sou apenas cauteloso com a forma disseminada de
uso de remédios para todas as finalidades. Além do uso indiscriminado de
antibióticos e de antidepressivos, cito outro exemplo que assisti em algum
programa televisivo: "As pessoas não querem emagrecer, querem ser
emagrecidas". Daí essa onda de medicamentos inibidores de apetites...
Frei Rogério Pereira Xavier,
OFM Conv
professor e doutorando em Filosofia
A proliferação de medicamentos - Os “doentes imaginários”
Revista O mensageiro de Santo Antônio, dez. 2011 - Ano LIV, n. 10, p. 44-45.
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