Trazendo a Caridade ao Coração: Reflexões sobre o Amor e a Unidade
1) UM
SÓ CORAÇÃO UMA SÓ ALMA
Um aspecto do amor
recíproco que se salientou desde o início do nosso Movimento, deve ser uma
novidade para os outros e é o seguinte: o amor recíproco deve levar
imediatamente todos, a um só pensamento; não apenas, portanto, a um só coração,
mas a um só pensamento. E se não há um só pensamento, é pra nós uma desunidade
que precisa ser sanada. Pois bem: está certo isto? É cristianismo? É um dever
para os cristãos?
Olhemos como viviam os
primeiros cristãos. Paulo lhes escrevia: “Rogo-vos, pois irmãos, em nome de
Nosso Senhor Jesus Cristo, que penseis todos da mesma maneira para que entre
vós não haja divisões; mas sede perfeitos no mesmo espírito e no mesmo
sentimento” (1Cor 1-10). O amor recíproco entre os primeiros cristãos, que leva
a um só pensamento, não é apenas um conselho, mas um verdadeiro e insistente
pedido. Outras partes da Escritura repetem idêntico conceito. Exige-se entre o
cristão a unanimidade.
Ser uma só alma
consiste em ter um único modo de pensar, o mesmo modo de sentir, que é o de
Jesus. Estão-se incorporados em Cristo, se somos Ele, tiver divisões,
pensamentos diferentes, é dividir Cristo. E devemos notar que para Paulo, esta
unidade de pensamento não dizia respeito somente aos pontos doutrinais, mas a
toda a vida na sua prática cristã. Na realidade, quando ele fala aos Coríntios,
sabe bem que não estavam divididos sobre pontos doutrinais, e, no entanto chega
ao ponto de suplicar-lhes que tenham a unidade de pensamento em tudo.
Naturalmente esta concórdia
era obtida, como hoje para nós através da comunhão, que é um exercício, uma
prática: através da comunhão de bens quer espiritual (as próprias ideias ou
inspirações oferecidas por amor), quer materiais. Quem não é pobre pelo menos
espiritualmente, não pode aspirar a possuir o Reino de Deus, nem em si nem com
os outros.
Era necessária, em
suma, aquela comunhão que, diríamos nós, despertaria a presença de Jesus no
nosso meio. Esta nossa unidade de pensamento desde agora, mais tarde
surpreenderá os outros que observarem o Movimento. Lembrar-se que inclusive
personalidade eminente deverá conseguir entender como pudemos exigir não só a
união dos corações, mas também a unidade de pensamento. Sobretudo ficar
admirados de que isto será uma realidade.
2) JAMAIS
QUEBRAR O AMOR SE DOBRA PARA NÃO ROMPER
Uma das características
do amor que Paulo sublinhava para se ter a caridade recíproca era o
suportar-se. E isto não era uma simples passiva, mas nascia da consciência de
que, para seguir Cristo e atuar os seus mandamentos, é preciso amar e abraçar a
cruz. Não se pode prescindir dela. É ilusão querer eliminá-la.
Escreve: “Com
longamidade, suportai-vos uns aos outros no amor solícito em conservar a
unidade do espírito mediante o vínculo da paz”. Suportar-se é um amor que se
dobra para não romper.
Com alegria e
reconhecimento a Deus, podemos dizer que a caridade sempre nos iluminou quanto
a esta atitude: às vezes, mesmo estando convencidos que um determinado modo de
pensar seria o melhor, o Senhor sugeriu-nos, a fim de salvar a unidade com
todos, que era melhor o menos perfeito em unidade com os outros do que o mais
perfeito em desunidade com eles. E este dobrar-se para não romper foi uma das
características talvez dolorosas, mas também eficazes e abençoadas por Deus,
que mantiveram e amadureceram a unidade na nossa Obra.
Muitas vezes alteramos
o verdadeiro significado da caridade, concebendo-a apenas como caminho para a
verdade. No entanto também a caridade é o absoluto, porque Deus é caridade.
Devemos, pois querer
ser no mundo o amor como dizia Santa Terezinha – aquele amor que tudo espera
tudo crê tudo suporta tudo tolera Aquele amor, o único que vê somente no qual a
verdade é autêntica.
É melhor o menos
perfeito, mas em unidade com os irmãos do que o mais perfeito, mas em
desunidade com eles; pois a perfeição não consiste nas ideias ou na sabedoria,
mas sim na caridade.
Devemos ver-nos como
Deus nos vê, não para nos criticarmos e nos condenar-nos, mas para termos
misericórdia uns para os outros e nos ajudar-nos.
Todo cristão é chamado,
pelo simples fato de ser cristão e assinar um cheque em favor de cada próximo,
no valor da sua própria vida. De fato, Jesus disse: “Amai-vos uns aos outros
como Eu vos amei”, e sabemos qual foi a sua maneira e a sua medida.
Não consta que os
primeiros cristãos entrassem em êxtase, mas que se amavam entre si: eles tinham
colhido, de modo vivo e imediato, o testemunho de Jesus.
3) O
SEGREDO DO DIÁLOGO
Para
“fazer-se um” é necessário ser longânime, que etmologicamente significa: sem
qualquer impaciência. Quando nos fazemos um, sem dúvida queremos o bem. Desta
atitude está longe a inveja. “Nos fazermos um “ não podemos nos envaidecer,
mas, pelo contrário, é necessário nos esvaziarmos de nós mesmos. Pensa-se só no
outro e, portanto, não há lugar para a ambição ou para o egoísmo. Quando nos
fazemos um, não nos irritamos, porque é necessária muita calma; não se pensa
mal, porque nos “fazemos um” justamente esperando que no outro triunfe o bem, a
justiça, a verdade. “Fazer-se um” é sofrer,
crer, suportar tudo.
Além
disso, para “nos fazermos um”, não nos devemos preocupar com respostas a dar ou
ações a fazer enquanto amamos, escutando o próximo. Pelo contrário, precisamos-nos
“esvaziarmos” completamente de nós, para carregar aquilo que pesa no outro, os
seus problemas, as suas necessidades; exatamente como Jesus fez.
Ora,
como o amor atrai a luz: “A quem me ama, eu me manifestarei” (Jo 14, 21),
fazendo-nos um perfeitamente com o outro, esvaziando-nos, atuando o
despojamento de nós mesmos, experimentamos que o Espírito Santo, talvez pelo
dom do conselho, amiúde nos sugere a resposta a ser dada ou nos indica a ação a
ser feita.
Depois,
como o outro se sente compreendido por nós e aliviado, terá olhos puros para
ver as coisas de Deus e desejará conhecê-las. O fazer-se um facilita ao cristão
o amor universal para com todos.
Com
efeito, esta atitude implica necessariamente o saber perder as angústias que
partilhamos com o irmão, para fazermos um com o novo próximo; e aqui entendemos
a preocupação que desde o início tivemos de não conservar resíduos de afetos ou
de pensamentos no coração ou na mente. Além do mais, é o que exige a nossa
castidade.
A
atitude de “fazer-se um”, de “fazer-se vazio” deve constituir a base das nossas
relações com quem quer que seja: superiores, inferiores, necessitados, como
condição essencial para viver a unidade. “Fazer-se um” é também expressão do
nosso amor individual ou coletivo se, em grupo, tratamos com outros grupos. Com
efeito, é a atitude certa papara qualquer diálogo. E nós somos chamados
justamente a isto.
Na
verdade, se nós não formos perfeitos em “nos fazermos um” assim como foi dito,
e não tivermos a caridade, não teremos a luz de Deus e o diálogo, qualquer
diálogo, pode tornar-se estéril e infrutífero, pode tornar-se conversação ou,
pior ainda, tagarelice. O diálogo é amar. Só o Espírito Santo em nós pode
verdadeiramente ajudar-nos a dialogar, e também só o Espírito Santo pode
fazer-nos descobrir todos os erros sutis escondidos nas mais fascinantes
teorias. Eis, então, que a caridade vivida assim, torna-se além do mais, de
grande atualidade, hoje que o diálogo é de tão relevante importância.
4) DEUS
NO HOMEM
Hoje como nunca, a
Igreja concretiza seu amor pelo homem, colocando a serviço dele todos os seus
recursos: a pastoral ordinária e a atuação de tantos carismas modernos.
Sob a influência de
várias e contrastantes ideologias, o mundo hoje encaminha-se para uma espécie
de humanismo de nova formação. O homem é centro de pensamento e, portanto,
objeto de considerações e atenções particulares, as quais variam de acordo com
a ideia que dele se tem. Este caminho do mundo rumo a um novo humanismo parece
já irreversível.
A Igreja, através do Concílio
e dos Papas dos últimos tempos, ciente do período que estamos atravessando,
teve e tem que conscientizar os cristãos cada vez mais de quem é o homem, sob o
ponto de vista da própria Igreja. È nesta época histórica que se situa o nosso
Movimento, a nossa espiritualidade cristã.
Observamos com surpresa
que também para nós, para este Movimento suscitado hoje por Deus, o homem
assume uma importância enorme e determinante, que talvez só dificilmente se
encontre em correntes de espiritualidade. Se, de fato, o homem sempre foi
objeto do amor cristão nas inumeráveis obras da Igreja que dele se ocuparam sob
os mais diversos aspectos, para nós ele é nada menos que o caminho que nos
permite o acesso a Deus. Nós vamos a Deus através do homem.
Quando o Senhor, com a
sua graça nos fez entender isto, pareceu-nos uma grande novidade e tornou-se
salutar escândalo para a mentalidade corrente de muitos cristãos que, às vezes,
consideravam o homem, a criatura, um obstáculo para a subida até Deus.
Com o homem, com o irmão,
nós podemos criar no meio do mundo um oásis de sobrenatural, de paraíso. Com o
irmão, no entanto, é também posta à prova a nossa virtude, quando ele se torna,
nas dificuldades que nos proporciona, um instrumento de Deus para a nossa
purificação.
É ainda no amor ao
irmão que encontramos a primeira e a maior arma para manter firme a nossa
consagração a Deus. E por causa do irmão que a nossa pobreza tem sentido, e é
porque existe o homem que podemos doar a Deus nossa obediência.
Um ideal consome uma
vida, mas dura uma eternidade!
5) SERVIR COM AMOR: Reavivar todas as obras de misericórdia com a caridade.
A caridade para com o
próximo, embora manifestando-se de modo concreto, não é caridade se não tem
raiz numa atitude espiritual.
Quando Paulo fala de caridade,
não diz que é dar pão ... mas chama “címbalo que tine” o fato de dar tudo aos
pobres sem uma atitude precisa.
Afirma, pelo contrário,
que a caridade é “longânime, benígna, não é invejosa, não se ufana, não se
ensoberbece, não é inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se
irrita, não suspeita mal, não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a
verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. (1Cor 13, 4-7).
Seria lógico então
concluir: é urgente transformar todas as nossas relações com os irmãos, pais,
parentes, colegas, conhecidos, homens de todo o mundo, em relações cristãs. E
impelidos e iluminados pelo amor, dar origem a obras individuais e sociais,
lembrando que, se um copo d’água terá a recompensa, então um hospital, uma
escola, um orfanato, um instituto de reeducação e assim por diante, feitos como
meios para exprimir a nossa caridade, haverão de nos preparar para um brilhante
exame final da vida.
De fato, Deus nos dirá:
“Tive fome no teu mariso, nos teus filhos, bem como nas populações pobres e tu,
vendo-Me neles, Me deste de comer”. “Tive sede, estive nu nas tuas crianças
todas as manhãs, como nos teus irmãos de muitas nações, onde as condições de
vida são desumanas, e tu, vendo-Me sempre em todos Me vestiste com aquilo que
possuías”.
“Estive órfão, faminto,
doente no menino do teu bairro, como nas populações do Nordeste violentamente
envolvidas pelos cataclismas e ameaçadas pela epidemia da cólera, e tu fizeste
todo o possível para Me socorrer”. “Suportaste a sogra ou a esposa nervosa,
como também teus operários descontentes ou patrão ainda um pouco compreensivo,
porque estás convencido que não haverá uma perfeita justiça social se não
florescer uma caridade social; e isto tudo o fizeste porque Me viste em todos”.
“Visitaste o parente encarcerado, rezaste e levaste um possível socorro a todos aqueles que vivem oprimidos e “violentados no íntimo do espírito...”. “Então, nós, atônitos, deixaremos sair de nossos lábios uma só palavra: obrigado. Obrigado meu Deus, por ter-nos aberto aqui na Terra um caminho, o mais breve, para chegarmos rápida e diretamente à celeste destinação”.
Nossa vocação primordial é o amor!

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