O Valor do Ecumenismo

 


 

D. Filíppo Santoro

Fonte – A voz do Pastor – Arquidiocese do Rio de Janeiro – Junho 2003

Como um oásis no meio do deserto da violência, da insegurança e da suspeita recíproca, se realizou na semana passada uma iniciativa ecumênica envolvendo na nossa cidade um grão número de pessoas. Trata-se da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, promovida por várias entidades, em particular pelo CONIC-RlO - Conselho Nacional de Igrejas Cristãs da Cidade do Rio de Janeiro. Junto com momentos de oração realizou-se também, no Colégio Metodista Bennett, um seminário de formação de lideranças ecumênicas com o objetivo de promover o espírito ecumênico nas nossas Igrejas e na sociedade. Vale a pena ressaltar, além da riqueza dos temas tratados, o clima de profundo respeito recíproco e de grande alegria pelo fato de reconhecermo-nos irmãos, mesmo com as nossas diferenças. Católicos, luteranos, anglicanos, metodistas, presbiterianos, batistas unidos na oração e na busca de um testemunho comum diante de uma sociedade dividida e ferida por muitas formas de violências e de dramas. E se, além das confissões cristãs presentes, estives­sem representantes de outras religiões, o clima teria sido o mesmo porque, ao lado de uma globalização selvagem do lucro e do domínio sobre o outro, existe hoje um vasto movimento que tem como objetivo a globalização da solidariedade, do respeito e da paz. Diante da exclusão e da eliminação do outro, coloca-se um movimento de afirmação do outro e de reconhecimento do positivo e do bem que está na experiência do outro.

Não foram ignorados problemas e dificuldades ainda persistentes, como, por exemplo, um certo mal-estar, produzido entre setores protestantes, pela Declaração “Dominus lesus”, feita no ano 2000 pelo Cardeal Ratzinger. Em lugar de ser motivo de briga, foi ocasião para apresentar as razões da parte católica em prol desse documento, explicando em que sentido se fala da “unicidade da Igreja de Cristo” que não pode ser apenas uma soma das várias Igrejas e Comunidades Eclesiais.

O movimento ecumênico procede na medida em que afirma o valor da identidade de cada confissão cristã e, ao mesmo tempo, o respeito pela diferença, mesmo quando esta é um obstáculo em vista de uma unidade plena. A opção ecumênica é para uma identidade dialógica na qual o a presença do outro e da sua diferença não é um limite, mas é ocasião para aprofundar aspectos diferentes da fé que poderíamos ter deixados de lado. Não se camuflam os limites, mas se aprofundam as fontes comuns da fé.

Assim procede, também entre nós, aqui, no Rio de Janeiro, o Diálogo Ecumênico, como incansável busca da unidade entre os cristãos. Em agosto do ano passado, se constituiu o CONIC- RIO - representação local do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs. Desde então, realizam-se momento sistemáticos nos quais a Diretoria envolve sempre mais as bases. Podemos citar, como exemplo, além de uma declaração comum contra a guerra no Iraque, toda a série de encontros que se realizam na semana passada: um pastor metodista pregando na Igreja Católica Nossa Senhora da Conceição de Realengo; um pastor luterano oferecendo o seu sermão na Igreja Metodista do Catete; o Bispo anglicano, na Igreja Presbiteriana Unida da Penha; um padre católico, na Igreja Episcopal Anglicana do Méier; um pastor presbiteriano, na Igreja Evangélica de Confissão Luterana da Praça Seca de Jacarepaguá. E todos juntos, com a presença do arcebispo do Rio, D. Eusébio Oscar Scheid, e dos máxi­mos representantes de várias confissões cristãs, na noite de sábado passado, na paróquia de Nossa Senhora de Copacabana numa grande vigília de oração.

Bem sabemos que existem muitos fiéis, sobretudo da maioria das novas denominações protestantes de orientação pentecostal, que permanecem distantes do ecumenismo. Entretanto, isso não é motivo para frear esse movimento de busca da unidade que corresponde ao pedido de Jesus que, na última ceia, rezou “a fim de que todos sejam um... para que o mundo creia que Tu me enviaste” (Jo 17,21).

No seminário realizado no Bennett, junto com o primado da oração, insistiu-se sobre a necessidade de uma formação ecumênica dos nossos fiéis e de iniciativas comuns em vários campos. Privilegiaram-se três iniciativas no campo da formação de uma cultura da Paz, da superação da violência e da fome e do incentivo ao Ensino Religioso. Neste último ponto, por iniciativa de pais, professores e alunos da comunidade metodista, foi preparado um abaixo-assinado para que seja dado cumprimento à Lei n. 3.459/2000 e ao Decreto n. 31.086/2002 que implantam o Ensino Religioso em todas as séries da Educação Básica no nosso Estado. Os presentes concordaram plenamente com essa iniciativa e assinaram a petição.

De fato, o ecumenismo, a paz e a superação da violência só serão possíveis privilegiando a educação que é um elemento fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e mais humana. É desejável que as novas denominações pentecostais evangélicas, junto com algumas denominações históricas que ainda não participam, possam aderir a este movimento.

O espírito ecumênico é um grande fator de crescimento das igrejas e da sociedade toda; aqueles que o praticam acabam ganhando porque aprofundam a sua identidade e comunicam à sociedade um estilo de vida baseado no respeito e na solidariedade. No meio de tanta divisão e violência, o ecumenismo é um fator de esperança para todos.

Entretanto, isso não é motivo para frear esse movimento de busca da unidade que corresponde ao pedido de Jesus que, na última ceia, rezou “a fim de que todos sejam um... para que o mundo creia que Tu me enviaste” (Jo 17,21). Kasper...

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