Como acolher os irmãos de outras religiões?

 

São Paulo (SP), 13/08/2004 - 14:32

Texto retirado do trabalho de conclusão de curso –

“Temas polêmicos em Teologia Moral"

Antonio Mesquita Galvão, doutor em Teologia Moral.

 

Em primeiro lugar, seria interessante a gente conceituar ecumenismo. No grego, vemos o vocábulo oikoumenikós como "toda a terra habitada", num sentido universal da terra como morada de todos. O ecumenismo é um movimento que visa a cooperação e unidade mundial entre as igrejas cristãs. Para os protestantes, que lideraram e fizeram progredir o movimento ecumênico desde o começo do século XX, a expressão aplica-se assim à unidade cristã, à expansão mundial do cristianismo através das atividades missionárias.

A Conferência Missionária Mundial, em Edimburgo (1910), marcou o começo do ecumenismo moderno. Em 1938, um comitê provisório foi nomeado para criar um "órgão representativo das igrejas". A formação do Conselho Mundial das Igrejas aconteceu em 1948, após a II Guerra Mundial. Alegando motivos dogmáticos, a Igreja Católica, num primeiro momento o rejeitou. A mudança ocorreu quando o papa João XXIII († 1963) convocou o Concílio Vaticano II. A renovação doutrinal e a união com outros credos eram os pontos mais importantes da agenda. O pontífice criou um Secretariado para a Promulgação da Unidade Cristã. No encerramento do Concílio, criou-se um grupo de trabalho conjunto entre o Vaticano e o Conselho Mundial das Igrejas, deixando uma porta aberta para os católicos aderirem ao Conselho Mundial. Isto ainda não aconteceu, mas a Igreja Católica mantém boas relações com o Conselho Mundial a cujas sessões, regularmente, envia observadores.

Os líderes ecumênicos procuram a unidade cristã, mas reconhecem algumas diferenças teológicas essenciais, que se tornam empecilhos, como a ordenação das mulheres, a autoridade papal, a questão mariana, o divórcio e a contracepção.

Na verdade, a despeito de um discurso ecumênico, há uma certa intransigência de todos os grupos envolvidos. Todos (inclusive nós católicos) entendem o ecumenismo como cada um renunciando às suas crenças, estabelecendo um cooptação por essa ou aquela crença. O esforço ecumênico ainda está longe de aceitar divergências, de conviver com diferenças e respeitar a crença de cada um. Cada um quer impor suas verdades e ver reconhecidos seus dogmas.

A ética do diálogo abandona certas pretensões absolutistas e universalistas, pois não pode haver diálogo quando alguém chega com pretensões absolutas. A afirmação de pretensão universal não pode coexistir com a pluralidade, e consequentemente deve ser sacrificada. É intrínseco ao diálogo a disposição para aprender; e uma universalidade que se exima de aprender converte-se numa simples autolatria.

 Deste modo, à Teologia Moral interessam os esforços de aproximação com as igrejas, cristãs e não-cristãs à medida que a acolhida e o bom senso imperem entre seus líderes. É moralmente inválida a resistência que alguns opõem à aproximação entre as religiões, alegando detalhes técnicos, às vezes burocráticos, eminentemente humanos, bem abaixo do valor inexcedível do amor de Deus e do projeto de Cristo de um só rebanho sob seu pastoreio (cf. Jo 10, 16).

 O ecumenismo é antes de tudo, um chamado de Deus, chamado este à concórdia, à fraternidade e ao serviço pelo Reino. O verdadeiro encontro com Deus nos torna convictos de nossa fé e - por esse motivo - abertos ao jeito do outro. Mesmo que a gente não pense e não ore igual, há uma obrigação moral de que nos amemos de modo igual. Por esta razão, o ecumenismo é hoje um chamado urgente. Chamado à conversão. A Deus e ao outro.

Há um tipo de cristão que ainda não entendeu o ecumenismo, mas seu coração não é contra os que se reúnem. Ele ainda não se sente bem fazendo essa concessão de ouvir quem ora e crê diferente. Mas há um tipo de cristão antiecumênico. Ele não vai e proíbe o outro de ir e condena quem vai. Ele aposta não no simbólico, e sim no diabólico. Não quer unidade nem busca de unidade na pluralidade e na diversidade. Acha que um dia o mundo inteiro vai pensar como ele.

 O ecumenismo, não há como negar, nos coloca num plano mais próximo da luz e da verdade. Faz de nós instrumentos de diálogo, converte-nos para o encontro e nos ensina a conviver com todos. Só através desse diálogo e desse convívio é que teremos a verdadeira paz.

Não haverá paz no mundo sem paz entre as religiões. Só haverá paz entre as religiões se estas se abrirem ao diálogo. Há coisas que impedem nosso avanço no ecumenismo. Nesse particular, nosso defeito maior é querer que os irmãos de outras religiões reconheçam seus "erros", reneguem sua fé, batizem-se na "nossa Igreja" e tornem-se católicos. Quem pensa assim - infelizmente - não sabe o que é ecumenismo e não vai chegar a lugar algum.


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