4. A queda dos Anjos Rebeldes (junho 27, 2020)

 


Audiência do dia 13 de agosto de 1986

(Publicada no L’OSSERVATORE ROMANO, ed. Port.,
no dia 17 de agosto de 1986.)

 

          1. Continuando o argumento das catequeses passadas dedicadas aos Anjos, criaturas de DEUS, concentramo-nos hoje a explorar o mistério da liberdade que alguns deles orientaram contra DEUS, e o seu plano de salvação em relação aos homens.

           Como testemunha o evangelista Lucas, no momento em que os discípulos voltavam ao Mestre cheios de alegria, pelos frutos recolhidos no seu tirocínio missionário, Jesus pronuncia uma palavra que faz pensar: “Eu via satanás cair do céu como um raio” (Cf. Lc 10, 18). Com estas palavras o Senhor afirma que o anúncio do reino de DEUS é sempre uma vitória sobre o diabo, mas ao mesmo tempo revela também que a edificação do reino está continuamente exposta às insídias do espírito mau.

 

          Interessar-se por isso, como pretendemos fazer com a catequese de hoje, quer dizer preparar-se para a condição de luta que é própria da vida da Igreja neste tempo derradeiro da história, da salvação (como afirma o livro do Apocalipse, cf. 12, 7). Por outro lado, isto permite esclarecer a reta fé da Igreja perante quem a altera exagerando a importância do diabo, ou quem nega ou minimiza o seu poder maléfico. As catequeses passadas, acerca dos anjos, preparam-nos para compreender a verdade que a Sagrada Escritura revelou e que a tradição da Igreja transmitiu sobre satanás, isto é, sobre o anjo caído, o espírito maligno, chamado também diabo ou demônio.

           2. Esta queda, que apresenta o caráter da rejeição de DEUS, com o conseqüente estado de danação, consiste na livre escolha daqueles espíritos criados, que radical e irrevogavelmente rejeitaram DEUS e o seu reino, usurpando os seus direitos soberanos e tentando subverter a economia da salvação e a própria ordem da criação inteira. Um reflexo desta atitude encontra-se nas palavras do tentador aos progenitores: “seres como DEUS” ou “como deuses” (Cf. Gn 3, 5). Assim o espírito maligno tenta insuflar no homem a atitude de rivalidade, de insubordinação e de oposição a DEUS, que se tornou quase a motivação de toda a sua existência.

 

          3. No Antigo Testamento, a narração da queda do homem, apresenta no livro do Gênesis, contém uma referência à atitude de antagonismo que satanás quer comunicar ao homem para o levar à transgressão (Gn 3, 5). Também no livro de Jó (Cf. Jó 1, 11; 2, 24), satanás é apresentado como o artífice da morte que entrou na história do homem juntamente com o pecado.

           4. A Igreja, no Concílio Lateranense IV (1215), ensina que o diabo, ou (satanás) e os outros demônios “Foram criados bons por DEUS mas tornaram-se maus por sua própria vontade”. De fato, lemos na carta de São Judas: “Os anjos que não que não souberam conservar a sua dignidade, mas abandonaram a própria morada, Ele os guardou para o julgamento do grande dia, em prisões eternas e no fundo das trevas”(Jd 6). De modo idêntico na Segunda Carta de São Pedro fala-se de “anjos que pecaram” e que DEUS não poupou... e os precipitou nos abismos tenebrosos do inferno, para serem reservados para o juízo” (2Pd 2, 4). É claro que se DEUS “não perdoa” o pecado dos anjos fá-lo porque eles permanecem no seu pecado, porque estão eternamente “nas prisões” daquela escolha que fizeram no início, rejeitando DEUS, sendo contra a verdade do Bem supremo e definitivo que é DEUS mesmo. Neste sentido São João escreve que “o demônio peca desde o princípio” (Jo 3, 8). E foi assassino “desde o princípio” (1Jo 8, 44).

           5. Estes textos ajudam-nos a compreender a natureza e a dimensão do pecado de satanás, consciente na rejeição da verdade acerca de DEUS, conhecido à luz da inteligência e da revelação como Bem infinito. Amor e Santidade subsistente. O pecado foi tanto maior quanto maior era a perfeição espiritual e a perspicácia cognoscitiva do intelecto angélico, quanto maior era a sua liberdade e a proximidade de DEUS. Rejeitando a verdade conhecia acerca de DEUS com um ato da própria vontade livre, satanás torna-se “mentiroso”, cósmico e “Pai da mentira”(Jo 8, 44). Por isso ele vive na radical e irreversível negação de DEUS e procura impor a criação aos outros seres criados à imagem de DEUS, que satanás (sob forma de serpente) tenta transmitir aos primeiros representantes do gênero humano: DEUS seria cioso das suas prerrogativas e imporia, portanto, limitações ao homem (CF. Gn 3, 5). Satanás convida o homem a libertar-se da imposição deste jugo, tornando-se como “DEUS”.

           6. Nesta condição de mentira existencial, satanás torna-se - segundo São João - também “assassino”, isto é, destruidor da vida sobrenatural que DEUS desde o princípio tinha introduzido nele e nas criaturas, feitas “à imagem de DEUS”: os outros puros espíritos e os homens; satanás quer destruir a vida segundo a verdade, a vida na plenitude do bem, a sobrenatural vida de graça e de amor. O autor do Livro da Sabedoria escreve: “Por inveja do demônio é que a morte entrou no mundo, e prová-la-ão os que pertencem ao demônio” (Sb 2, 24). E no evangelho Jesus Cristo adverte: “Temei antes aquele que pode fazer perecer na Geena o corpo e a alma” (Mt 10, 28).

           7. Como efeito do pecado dos progenitores, este anjo caído conquistou em certa medida o domínio sobre o homem. Esta é a doutrina constantemente confessada e anunciada pela Igreja, e que o Concílio de Trento confirmou no tratado sobre o pecado original (CF. DS 1511): ela encontra dramática expressão na liturgia do batismo, quando ao catecúmeno se pede para renunciar ao demônio e a suas tentações.

           Deste influxo sobre o homem e sobre as disposições do seu espírito (e do corpo), encontramos várias indicações na Sagrada Escritura, na qual satanás é chamado “o príncipe deste mundo” (2Cor 4, 4). Encontramos muitos outros nomes que descrevem as suas relações com o homem: “Belzebu” ou “Belial”, “espírito maligno” e por fim “anticristo” (Jo 4, 3). É comparado com um “leão” (1Pr 5, 9), com um “dragão”(Apocalipse) e com uma “serpente” (Gn 3). Com muita frequência, para o designar é usado o nome “diabo”, do grego “diabellein” (daqui “diabólicos”), que significa: causar a destruição, dividir, caluniar, enganar. E, para dizer a verdade, tudo isto acontece desde o princípio, por obra do espírito maligno, que é apresentado, pela Sagrada  Escritura, como uma pessoa, embora tenha afirmado que não está só: “somos muitos”, respondem os diabos a Jesus, na região dos Geracenos (Mc 5, 9); “o diabo e seus anjos”,  diz Jesus, na descrição do juízo final  (Cf. Mt 25, 41).

           8. Segundo a Sagrada Escritura, e de modo especial no Novo Testamento, o domínio e o influxo de satanás e dos outros espíritos malignos abrange todo o mundo. Pensemos na parábola de Cristo sobre o campo (que é o mundo), sobre a boa semente e sobre a que não é boa, que o diabo semeia no meio trigo procurando arrancar dos corações aquele bem que neles foi “semeado” (Cf. Mt 13, 38-39). Pensemos nas numerosas exortações à vigilância (Cf. Mt 26, 41; 1Pd 5, 8), à oração e ao jejum (Cf. Mt 17, 21). Pensemos naquela forte afirmação do Senhor: “Esta casta de demônios só pode ser expulsa com oração” (Mc 9, 29). A ação de satanás consiste antes de tudo em tentar os homens ao mal, influindo na sua imaginação e nas sua faculdades superiores para as orientar em direção contrária à lei de DEUS. Satanás põe à prova até Jesus (Cf. Lc 4, 3-13), na tentativa extrema de contratar as exigências da economia da salvação como DEUS a estabeleceu.

           Não é para excluir que em certos casos o espírito maligno chegue até o ponto de exercer o seu influxo não só nas coisas materiais, mas também sobre o corpo do homem, pelo que se fala de “possessos de espíritos impuros” (Cf. Mc 5, 2-9). Nem sempre é fácil discernir o que de preternatural acontece nestes casos, nem a Igreja condescende ou segunda facilmente a tendência a atribuir muitos fatos a intervenções diretas do demônio, mas em linha de princípio não se pode negar que, na sua vontade de prejudicar e de levar para o mal, satanás possa chegar a esta extrema manifestação da sua superioridade.

           9. Devemos por fim acrescentar que as impressionantes palavras do Apóstolo João: “O mundo inteiro está sob o jugo do maligno” (Jo 5, 19), aludem também à presença de satanás na história da humanidade, uma presença que se acentua à medida que o homem e a sociedade se afastam de  DEUS. O influxo do espírito maligno pode ocultar-se de modo mais profundo e eficaz: fazer-se ignorar corresponde aos seus “interesses”. A habilidade de satanás no mundo está em induzir os homens a negarem a sua existência, em nome do racionalismo e de cada um dos outros sistemas de pensamento que procuram todas as escapatórias para não admitir a obra dele. Isto não significa, porém, a eliminação da vontade livre e da responsabilidade do homem e nem se quer a frustração da ação salvífica de Cristo. Trata-se antes de um conflito entre as forças as, do forças da redenção. São eloquentes a este propósito as palavras que Jesus dirigiu a Pedro  no início da Paixão:  “Simão, olha que satanás vos reclamou para vos joeirar como o trigo, Mas Eu roguei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça” (Lc 22, 31).

           Por isso compreenderemos o motivo por que Jesus, na oração que nos ensinou, o: “Pai-nosso”, que é a oração do reino de DEUS, termina bruscamente, ao contrário de muitas outras orações do seu tempo, recordando-nos a nossa condição de expostos às insídias do Mal-Maligno. O cristão, fazendo apelo ao Pai com o espírito de Jesus e invocando o seu Reino, brada com a força da fé: não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal, do Maligno. Não nos deixeis, ó Senhor, cair, na infidelidade a que nos tenta aquele que foi infiel desde o princípio.

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