3. Criador dos anjos, seres livres (junho 27, 2020)


 

Audiência do dia 23 de julho de 1986

(Publicada no L’OSSERVATORE ROMANO, ed. Port.,
no dia 27 de julho de 1986.)

           1. Continuamos hoje a nossa catequese sobre os anjos, cuja existência, querida mediante um ato de amor eterno de Deus, professamos com as palavras do símbolo niceno-constantinopolitano: “Creio em um só Deus, Pai Todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”.

           Na perfeição da sua natureza espiritual, os anjos são chamados desde o princípio, em virtude da sua inteligência, a conhecer a verdade e a amar o bem que conhecem na verdade de modo muito mais perfeito do que é possível ao homem. Este amor é o ato de uma vontade livre, pelo que também para os anjos a liberdade significa a possibilidade de efetuar uma escolha favorável ou contra o Bem que eles conhecem, isto é, Deus mesmo. É preciso repetir aqui o que já recordamos a seu tempo a propósito do homem: criando os seres livres, Deus quis que no mundo se realizasse aquele amor verdadeiro que só é possível quando tem por base a liberdade. Ele quis, portanto, que a criatura, formada à imagem e semelhança do seu Criador, pudesse do modo mais pleno possível tornar-se semelhante a Ele, Deus, que “é amor” (Jo 4, 16). Criando os espíritos puros como seres livres, Deus, na sua Providência, não podia deixar de prever também a possibilidade do pecado dos anjos. Mas, precisamente porque a Providência é eterna sabedoria que ama, Deus saberia tirar da história deste pecado, incomparavelmente mais radical enquanto pecado de um espírito puro, o definitivo bem de todo o cosmos criado.

           2. Com efeito, como diz de modo claro a Revelação, o mundo dos espíritos puros apresenta-se dividido em bons e maus. Pois bem, esta divisão não se realizou por obra de Deus, mas em conseqüência da liberdade própria da natureza espiritual de cada um deles. Realizou-se mediante a escolha que para os seres puramente espirituais possui um caráter incomparavelmente mais radical do que a do homem, e é irreversível dado o grau do caráter intuitivo e de penetração do bem de que é dotada a sua inteligência. A este propósito deve dizer-se também que os espíritos puros foram submetidos a uma prova de caráter moral. Foi uma escolha decisiva a respeito, antes de tudo, de Deus mesmo, um Deus conhecido de modo mais essencial e direto do que é possível ao homem, um Deus que a estes seres espirituais tinha feito o dom, primeiro que ao homem, de participar da sua natureza divina.

           3. No caso dos puros espíritos a escolha decisiva dizia respeito antes de tudo a Deus mesmo, primeiro e supremo Bem, aceito ou rejeitado de modo mais essencial e direto do que pode acontecer no raio de ação da vontade livre do homem. Os espíritos puros têm um conhecimento de Deus incomparavelmente mais perfeito do que o do homem, porque com o poder do seu intelecto, nem condicionado nem limitado pela mediação do conhecimento sensível, vêem inteiramente a grandeza do Ser infinito, da primeira Verdade, do sumo Bem. A esta sublime capacidade de conhecimento dos espíritos puros, Deus ofereceu mistérios da sua divindade, tornando-os assim partícipes, mediante a graça, da sua infinita glória. Precisamente porque são seres de natureza espiritual, havia no seu intelecto a capacidade, o desejo desta elevação sobrenatural a que Deus os tinha chamado, para fazer deles, muito antes do homem, “participantes da natureza divina” (Cf. 2Pd 1, 4), partícipes da vida íntima dAquele que é Pai, Filho e Espírito Santo, dAquele que na comunhão das três Pessoas Divinas “é Amor” (1Jo 4, 16). Deus tinha admitido todos os espíritos puros, primeiro e mais do que o homem, na eterna comunhão do amor.

           4. A escolha feita com base na verdade acerca de Deus, conhecida de forma superior devido à lucidez da inteligência deles, dividiu também o mundo dos puros espíritos em bons e maus. Os bons escolheram Deus como Bem supremo e definitivo, conhecido à luz do intelecto iluminado pela Revelação. Ter escolhido Deus significa que se dirigiram a Ele com toda a força interior da sua liberdade, força que é amor.

           Deus tornou-se a total e definitiva finalidade da sua existência espiritual. Os outros, pelo contrário, voltaram as costas a Deus em oposição à verdade do conhecimento que indicava nEle o bem total e definitivo. Escolheram em oposição à revelação do mistério de Deus, em oposição à sua graça que os tornava participantes da Trindade e da eterna amizade com Deus na comunhão com Ele mediante o amor. Tendo como base a sua liberdade criada, fizeram uma escolha radical e irreversível, tal como os anjos bons, mas diametralmente oposta: em vez de uma aceitação de Deus cheia de amor, opuseram-Lhe uma rejeição inspirada por um falso sentido de auto-suficiência, de aversão e até de ódio que se transformou em rebelião.

           5. Como se hão de compreender esta oposição e esta rebelião a DEUS em seres dotados de tão viva inteligência e enriquecidos com tanta luz? Qual pode ser o motivo desta radical e irreversível escolha contra DEUS? De um ódio tão profundo que pode parecer unicamente fruto de loucura? Os Padres da Igreja e os teólogos não hesitam em falar de “cegueira” produzida pela supervalorização da perfeição do próprio ser, levada até o ponto de velar a supremacia de DEUS, que, pelo contrário, exigia um ato dócil e obediente submissão. Tudo isto parece estar expresso de modo conciso nas palavras: “Não Vos servirei” (Jr 2, 20), que manifestam a radical e irreversível recusa a tomar parte na edificação do reino de DEUS no mundo criado. “Satanás”, o espírito rebelde, quer o próprio reino, não o de DEUS, e exige-se em “primeiro” adversário do Criador, em opositor da Providência, em antagonista da sabedoria amorosa de DEUS. Da rebelião e do pecado do homem, devemos concluir, acolhendo a sábia experiência da Escritura que afirma: “Na soberba está contida muita corrupção” (Tb 4, 13).

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