1. Criador das "coisas visíveis e invisíveis" - postado anteriormente: junho 27, 2020



 Audiência do dia 9 de julho de 1986

(Publicada no L’OSSERVATORE ROMANO, ed. Port.,
no dia 13 de julho de 1986.)

  

          1. As nossas catequeses sobre Deus, criador do mundo, não podem terminar sem dedicar adequada atenção a um precioso conteúdo da Revelação divina: a criação dos seres puramente espirituais, que a Sagrada Escritura chama “anjos”. Esta criação aparece claramente nos símbolos da fé, de modo particular no símbolo Niceno-constantinopolitano: “Creio em um só Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador do Céu e da terra, de todas as coisas (isto é, entes ou seres) visíveis e invisíveis”. Sabemos que o homem goza, no interior da criação, de uma posição singular: graças ao seu corpo, pertence ao mundo visível, enquanto pela alma espiritual, que vivifica o corpo, se encontra quase no confim entre a criação visível e a invisível. A esta última, segundo o Credo que a Igreja professa à luz da Revelação, pertencem outros seres, puramente espirituais, portanto não próprios do mundo visível, embora estejam presentes e operem neles. Estes constituem um mundo específico.

 

          2. Hoje, como nos tempos passados, discuti-se com mais ou menos sabedoria sobre estes seres espirituais. É preciso reconhecer que a confusão às vezes é grande, com conseqüente risco de fazer passar como fé da Igreja a respeito dos anjos aquilo que não pertence à fé, ou, vice-versa, de omitir algum aspecto importante da verdade revelada. A existência dos seres espirituais, a que de costume a Sagrada Escritura chama “anjos”, era já negada, nos tempos de Cristo, pelos saduceus (Cf. At 23, 8). Negam-na também os materialistas e os racionalistas de todos os tempos. Todavia como perspicazmente observa um teólogo moderno, “se nos quiséssemos desembaraçar dos anjos, deveríamos rever radicalmente a Sagrada Escritura mesma, e com ela toda a história da salvação”(A. Winklhofer,  Die Welt der Engel, Ettal, 1961, p. 144, nota 2; em  Mysterium Salutis, II, 2, p. 726). Toda a Tradição é unânime sobre esta questão. O credo da Igreja é, no fundo, um eco que Paulo escreve aos Colossenses: “N’Ele  (Cristo) foram criadas todas as coisas nos Céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, os Tronos e as Dominações, os Principados e as Potestades: tudo foi criado por Ele e para Ele”(CL 1, 16). Ou seja, o Cristo, que como Filho-Verbo eterno e consubstancial ao Pai é “primogênito de toda a criatura”(Cl 1, 15), está no centro do universo, como razão e fundamento de toda a criação, como já vimos nas catequeses passadas e como veremos ainda quando falarmos mais diretamente d’Ele.

 

          3. A referência ao “primado” de Cristo ajuda-nos a compreender que a verdade acerca da existência e da obra dos anjos (bons e maus) não constitui o conteúdo central da palavra de Deus. Na revelação, deus fala antes de tudo “aos homens ... e conversa com eles, para os convidar e os receber em comunhão com Ele”, como lemos na Constituição  Dei Verbum, do Concílio Vaticano II (DV, n.º 2). “Assim a verdade profunda, tanto a respeito de Deus como da salvação do homem”, é o conteúdo central da revelação que “resplandece” mais plenamente na pessoa de Cristo (Cf. DV 2). A verdade acerca dos anjos é em certo sentido “colateral”, mas inseparável da revelação central, que é a existência, a majestade e a glória do Criador que refulgem em toda a criação (“visível” ou “invisível”) e na ação salvífica de Deus na história do Homem. Os anjos não são, portanto, criaturas de primeiro plano na realidade da Revelação; contudo, pertence-lhe plenamente, tanto que nalguns momentos os vemos realizar tarefas fundamentais em nome de Deus mesmo.

 

          4. Tudo o que pertence à criação reentra, segundo a Revelação, no mistério da divina Providência. Afirma-o de modo exemplarmente conciso o Vaticano I que já citamos mais de uma vez: “Tudo o que Deus criou, conserva-o e dirige-o com Sua providência, que estende seu vigor de uma extremidade à outra e governa todas as coisas com suavidade” (Cf. Sb 8, 1). “Todas as coisas estão a nu e a descoberto aos seus olhos” (Cf. Hb 4, 13)  “mesmo o que se realizou por livre iniciativa das criaturas” (DS 3003). A Providência abrange , por conseguinte, também  o mundo dos puros espíritos, que ainda mais plenamente do que os homens são seres racionais e livres. Na Sagrada Escritura encontramos preciosas indicações que lhes dizem respeito. Há também a revelação de um drama misterioso, embora real, que tocou estas criaturas angélicas, sem que nada escapasse à eterna Sabedoria, a qual com força (fortiter) e ao mesmo tempo com suavidade  (suaviter) tudo leva a cumprimento no reino do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

          5. Reconheçamos antes de tudo que a Providência, como amorosa Sabedoria de Deus, se manifestou precisamente no criar seres puramente espirituais, para que melhor se exprimisse a semelhança de Deus neles que superam de muito tudo o que foi criado no mundo visível, juntamente com o homem, também ele incancelável imagem de Deus. Deus, que é Espírito, absolutamente perfeito, reflete-se sobretudo nos seres espirituais que por natureza, isto é, devido a sua espiritualidade, Lhe estão muito mais próximo do que as criaturas materiais, e que constituem quase o “ambiente” mais próximo ao Criador. A Sagrada Escritura oferece um testemunho bastante explícito desta máxima proximidade a Deus, dos anjos, dos quais, com linguagem figurada, como o “trono” de Deus, das suas “legiões” do seu “céu”. Ela inspirou a poesia e a arte dos séculos cristãos que nos apresentam os anjos, com a “corte de Deus”.

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